População Tradicional e Educação Ambiental
O relato a seguir é de Jean de Léry, um francês que, em 1557, fez parte de um grupo que tentou estabelecer no Rio de Janeiro uma colônia com fins comerciais (Jean de Léry – Viagem a Terra do Brasil, 1557).
Os índios não compreendem o mercantilismo!
Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros que se deram ao trabalho ao trabalho de ir buscar seu arabutã (pau-brasil).
Uma vez, um velho perguntou-me: – Por que vindes vós outros, mairs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?
Respondi que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como supunha ele, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente: – E porventura precisais de muito?
– Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem muitos negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras marcadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.
– Ah!, retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhes dissera: mas esse homem tão rico de que me falas não morre?
– Sim, disse eu, morre como os outros.
Mas os selvagem são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim. Por isso, perguntou-me de novo: – E quando morrem, pra quem fica o que deixam?
– Para seus filhos, se os têm, respondi. Na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos.
– Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros mair sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que nos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estarmos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá. Por isso descansamos sem maiores cuidados.
(Revista Alvorada, no 57, p. 38, 2009)
Assim como os indígenas, todas as populações tradicionais têm muito a ensinar à sociedade contemporânea, dita civilizada, sobre um relacionamento saudável e sustentável com o meio ambiente. Infelizmente, ainda existem muitos preconceitos com esses grupos humanos, pelo fato deles não serem “civilizados”; a mesma situação acontece com o homem do campo, os “caipiras” ou àqueles que vivem de maneira mais simples.
O relato de Jean de Léry nos mostra que a perspectiva capitalista de consumo, sucesso e individualismo não era característica de muitas populações antigas. Sendo assim, ela, certamente, foi construída com o decorrer dos anos, atingindo a sociedade de maneira geral.
Acontece que, de alguma maneira, EXISTEM POVOS RESISTENTES ao American way of live. E é possível aprender com isso. Para quem viveu tantos anos sobrevivendo da natureza, é um desrespeito considerar as populações tradicionais simplesmente como “depredadoras” ou, então, como pessoas que devem ser incorporados ao estilo de vida moderno e engrossar o bolsão de miséria nas periferias das cidades (embora a miséria já os tenha alcançado, em muitos casos). Talvez, seja relevante ir mais além: a presença das comunidades tradicionais pode fazer o mundo “civilizado” questionar seu estilo de vida nada sustentável e buscar alternativas de vida mais simples.
O site do IBAMA (http://www.ibama.gov.br/resex/pop.htm) traz importantes contribuições para se analisar a interação entre as populações tradicionais e o meio ambiente:
“No nosso entendimento, a idéia de Populações Tradicionais está essencialmente ligada à preservação de valores, de tradições, de cultura. Ao longo da sua história, o homem através de múltiplas experiências e situações vivenciadas, tem alcançado importantes conquistas que o fazem avançar, que elevam sua dignidade de espécie humana. Acontece que o ritmo das mudanças, a velocidade das descobertas tem crescido em ritmo geométrico, nos últimos 50 anos, tornando obrigatória a consolidação de certos valores, ou então o resgate de valores que apenas são conservados por populações tradicionais; caso contrário, podem ser jogadas ao esquecimento conquistas seculares da humanidade”.
“Dois aspectos importantes devem ser levados em conta por quem trabalha com populações tradicionais: primeiro, fazer com que elas não se sintam excluídas, marginalizadas, pelo fato de terem um sistema econômico e de vida diferentes. Segundo, que as pessoas passem a incorporar o fato de serem populações tradicionais como uma opção, como uma forma positiva de vida, e não como algo do destino. O dinamismo destas populações deve levar a tal incorporação, como também a assimilar o que de positivo possam ter outro grupos humanos, sem perder os valores que fazem a essência da sua tradição”.
“A relação entre as populações tradicionais e o meio ambiente é positiva quando há possibilidade de manter o progresso humano, de maneira permanente até um futuro longínquo. Trata-se, portanto, de concretizar um desenvolvimento econômico sustentável, incrementando o padrão de vida material dos pobres. A pobreza e a miséria são inimigos potenciais do meio ambiente, na medida em que as necessidades de sobrevivência obrigam, muitas vezes, as populações tradicionais a agredirem o meio ambiente. Para tornar tais populações aliadas na conservação, é necessário incrementar a oferta de alimentos, a renda real, os serviços educacionais, os cuidados com a saúde etc. Isto é, torna-se necessário executar, junto com tais populações, projetos de desenvolvimento sustentável”.
Pelo exposto, pode-se perceber, enfim, que o diálogo deve estar aberto entre as populações tradicionais, a sociedade moderna e os educadores ambientais. Há, com certeza, muito que aprender com as populações tradicionais, assim como há muitas realidades do mundo contemporâneo que precisam estar presentes nessas comunidades para que elas possam sobreviver com dignidade. Falta, talvez, disposição da sociedade para isso e, com certeza, vontade política para a maioria dos governos.


