O Começo do Pensamento Ecológico
O pensamento ambientalista ou ecológico pode ser remontado ao século XVIII, quando a visão romântica, arcadiana, idealizava a vida simples, rural, e criticava o utilitarismo da nova sociedade industrial que surgia. E ainda nessa época surge os naturalistas. Com as conseqüências da relação de exploração do homem com a natureza. Isso levou inicialmente a um movimento pela proteção da vida selvagem, surgindo os primeiros movimentos ambientalistas, britânico e sueco. Os fundamentos da botânica e da zoologia modernas, além dos de outras ciências biológicas, foram estabelecidos pelos trabalhos de naturalistas amadores nos séculos XVI, XVII e XVIII. É provável que as descobertas do naturalista John Ray e do botânico Carl von Linné, cujo trabalho em taxonomia botânica foi a infância da ecologia estimularam as pesquisas em ciências naturais, culminando nas teorias de Darwin e Wallace.
Historicamente, a ecologia como disciplina científica tem seus primeiros fundamentos definidos no século XIX. O termo ecologia (Oekologie) foi citado em 1866, por Ernest Haeckel (1834-1919), numa nota de rodapé de página de seu livro Morfologia Geral dos Organismos. A palavra biologia é substituída por ecologia, sendo esta definida por Haeckel como a “ciência da economia, do modo de vida, das relações externas do organismo.” Contudo, somente na segunda metade do século XX é que a síntese completa da ecologia foi constituída coerentemente. No presente, define-se a ecologia como “o estudo do relacionamento dos organismos vivos com o mundo”, ou a ciência das inter-relações que ligam os organismos vivos ao seu ambiente.
Para Haeckel, a ecologia era um capítulo da biologia. Nos últimos anos diversos autores tem sublinhado que a crise ambiental não é somente a soma de problemas ambientais e locais e globais, mas um dos aspectos das profundas mudanças ocasionada nos fins da chamada modernidade. Por isso, há varias adjetivações do termo ecologia: ecologia social, ecologia humana, ecologia política, ecologia urbana e ecologia mental.
Assim estavam dadas as bases para melhor explicar a inter-relação dos sistemas vivos com o ambiente. A partir destes modelos ecossistêmicos foi possível compreender melhor os impactos da poluição sobre os sistemas ecológicos, os quais, ao serem associados aos graves acidentes ambientais, tais como: a contaminação, o vazamento de gases tóxicos, os acidentes de usinas nucleares, as mudanças climáticas; a destruição de florestas com a perda da biodiversidade; a poluição generalizada dos rios, mares, solos e atmosfera, e, ainda, ao serem agravados pelos níveis de pobreza e miséria da maior parte da população mundial, proporcionaram importantes argumentos para interrogar o poder e os rumos no uso da tecnociência e impulsionar os diversos movimentos contestatórios em todo o mundo.
Com base nos novos modelos científicos, tem-se uma visão integrada dos diversos ecossistemas terrestres, e a questão ambiental passa a ser tratada em nível global. Por questão ambiental pode-se entender a contradição fundamental que se estabeleceu entre os modelos de desenvolvimento adotados pelo homem, marcadamente a partir do século XVIII, e a sustentação deste desenvolvimento pela natureza. A partir da Revolução Industrial, a velocidade de produção, o avanço do mundo urbanizado e a força poluidora das atividades bélicas e industriais superaram em muito a capacidade regenerativa dos ecossistemas e a reciclagem dos recursos naturais renováveis, colocando em níveis de exaustão os demais recursos naturais não renováveis.
A constatação da crise generalizada, identificada na ciência e refletida na sociedade, pode ser percebida como risco ou como oportunidade de se lançarem novas bases para mudanças. A ciência e, sobretudo, seu uso técnico-industrial pode tanto estar a serviço da melhoria das condições ambientais e conseqüentemente sociais, como ser utilizada para fins não tão nobres. Mas cabe tanto à ciência quanto a teologia formular uma “nova” mentalidade, com paradigmas responsáveis pela manutenção da vida, em todas as suas dimensões.
A recente palavra da teologia à questão ecológica
É difícil precisar quando a questão ecológica passou a ser um tema na teologia. A articulação entre a teologia e outras ciências sempre foram um impasse até recentemente. Mas a urgência em dar respostas imediatas aos desafios que a cultura e a sociedade questionavam à teologia virou motivo de preocupação nas academias teológicas. Quando a crise no meio ambiente tornou-se notório as comunidades cristas levaram a serio a crise, porém, sem clareza de fundamentação teológica, de conhecimento de causa e de linha de ação para conter a catástrofe iminente. Por este motivo é raro vermos conscientizações quanto ao tema ecológico em nossas igrejas.
Em todo caso, a teologia começou a se interessar pelo debate teológico e o enfrenta como um diálogo, necessário e urgente, entre as ciências da fé e as da natureza.
Na Conferência sobre o Meio Ambiente promovida pelas Nações Unidas em 1972, em Estocolmo, uma Comissão das Igrejas para os Assuntos Internacionais do Conselho Mundial de Igrejas foram convidadas, mas realmente foi só na década de 80 que as Igrejas começaram a levar mais a sério a problemática da Criação e da responsabilidade cristã para com ela, tomando iniciativas que culminaram com a realização da Assembléia Ecumênica Européia de Basiléia em 1989, sob o tema “Paz e Justiça para toda a Criação”, e com o congresso mundial de Seul, organizado pelo CMI em 1990, para ser o ponto alto do programa “Paz, Justiça e Integridade (salvaguarda) da Criação”. A continuação deste programa havia de ser decidida na Assembléia Geral do CMI, realizada em Camberra em 1991, e, finalmente, o Comitê Central do CMI decidiu, em 1994, na África do Sul, que uma das quatro Unidades de serviço do Conselho se chamaria precisamente “Paz, Justiça e Integridade da Criação” e se ocuparia de forma regular e sistemática de toda esta problemática.
No documento Compromisso Cristão Pela Reconciliação, aprovado na Assembléia Ecumênica Européia de Graz (1997), podemos ler: “Não pusemos em prática o mandamento divino de tratar com respeito a criação inteira e de trabalhar para ganhar a sua integridade. Interpretamos abusivamente a exortação bíblica de submeter e dominar (Gn. 1:28), como se nos dessem licença para explorar conscientemente e de maneira egoísta as riquezas da criação…”.
Como o texto acima admite, o resultado desses encontros e reflexões teológicas entenderam que expressões até então usadas na teologia, como “dominação” possibilitava lidar com destemor com as coisas do mundo propiciando, portanto, a exploração predatória. Os questionamentos de teses teológico-criacionaistas contribuiu decisivamente para que, no debate atual, a teologia da criação adquirisse nova atualidade:
“A consciência das condições ecológicas da terra, que ameaçam toda a vida, também influencia o método e o conteúdo da teologia criacional: nessa situação se faz necessário um esforço que trabalha na base do diálogo interdicisplinar e de orientação ecumênico-universal, para preservação da possibilidade de sobrevivência.”
Com esses esforços, hoje, temos numerosas publicações em que se dá à crise atual uma interpretação teológica, mas que também apontam caminhos para superação. Essas contribuições para o debate podem ser resumidas sob o título “Teologia Ecológica”, Moltmann preferiria o nome de “Teologia da Natureza”, em contraste à Teologia Natural. Cresce, também, o número de documentos oficiais das igrejas, nos quais se faz referencia ao problema ambiental. Tanto nos âmbitos protestantes históricos, como a Amir, por exemplo, têm explorado textos dos reformadores lançando luzes para a construção de uma teologia ecológica, como por exemplo, o já citado acima, a doutrina da Imago Dei. Está proporcionou a doutrina do Mandato Cultural, doutrina que claramente defende a mordomia cristã, a responsabilidade do homem pela criação e o cuidado com o meio ambiente. Do lado católico, desde 1987 na encíclica Solicitude rei socialis fala-se do caráter moral do desenvolvimento. Outros dois documentos importantes dos católicos foram, Centesimus annus (1991) e Evangelium vitae (1995), nesses documentos é feito uma bela defesa da vida, condena os interesses egoístas e o “problema do consumismo e a ele estritamente ligada, a questão ecológica.” Enfim, poderia citar aqui vários encontros internacionais de igrejas que procuraram conciliar o comprometimento mútuo em favor da justiça, da paz e da preservação da criação. Ótimos e belos documentos foram produzidos. Mas o que assusta é que nas igrejas locais, esses discursos ainda não fazem parte da pregação. Numa pesquisa realizada por Cristiane Inês Musa, Lílian Blank de Oliveira e Rafaela Vieira, sobre educação ambiental nas igrejas, surpreende a omissão e até falta de informação de maior parte de líderes cristãos. Mas essa sempre uma dificuldade nossa, sair do discurso e ir para a prática. Os documentos Gottes Gaben – unsere Aufgabe (Dádivas de Deus – Nossa tarefa, produzido na Alemanha em 1989) e outros atestam a necessidade de dar continuidade ao debate ecológico em encontros regionais menores. Apesar dos resultados práticos serem um pouco decepcionante, no entanto os esforços podem ser considerado um passo importante na caminhada no sentido de assumir responsabilidades comuns pela preservação da criação.

