Os Cândidos e Pangloss da ecologia
Quando os cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) divulgaram o primeiro relatório sobre o aquecimento global, a opinião pública levou um choque. Potencializada pela mídia, milhões de pessoas, como dizem os jovens, caíram na real. Isso foi bom.
Por outro lado, quando os cientistas mais extremados, para gosto das manchetes, supervalorizam o estrago ambiental, de que a crise é irreversível, cultivam a resignação. Só resta, pensa o povo, chorar o leite derramado. Isso não é bom. Devemos avaliar a atual crise ambiental, questionar e por fim decidirmos o que fazer diante das conclusões a que chegamos.
Em novembro de 1755, a luxuosa cidade de Lisboa foi destruída por um funesto terremoto, cuja violência impressionou toda a Europa. A natureza do evento, que passou em brancas nuvens para a maioria dos mortais, iria influenciar definitivamente o pensamento de uma pessoa: o filósofo françês conhecido por Voltaire (1694-1778). Foi ele, porém, um dos poucos pensadores a fazer reflexões sobre o significado daquele incidente. Dizia ele que se tudo está bem, qual era o significado da tragédia? E que se o mundo está em ordem, esta ordem deveria servir para o bem-estar do homem.
Como incidente geológico, se as causas do terremoto não eram totalmente conhecidas, pelo menos eram suspeitadas. Contudo, para o filósofo francês, não foi nem o mistério, nem a dimensão do sismo que, para ele, tornou o evento singular. Porém, Voltaire transformaria a catástrofe num evento notável ao utilizá-lo como exemplo para criticar o paradigma do “otimismo filosófico”, criticando a doutrina da Providência Divina, que a partir da tradição vigente, também defendida por Leibniz, a natureza revelaria um sistema onde o acaso é uma determinação que os homens desconhecem, e o mal é um elemento necessário de uma perfeição da qual conhecemos somente parte do todo. Voltaire admitia a idéia de ordem no mundo, mas viu a tragédia como uma possibilidade de que essa ordem pudesse ser rompida.
A partir do terremoto que destruiu Lisboa Voltaire concebeu a história de Cândido. Cândido é um jovem criado por Pangloss, seu preceptor, que lhe oferece uma visão otimista de que todos vivem no melhor dos mundos. Um dia, eles são expulsos do castelo onde viviam, e passam por terríveis atribulações. De sofrimento em sofrimento o jovem passa a desacreditar na tese de Pangloss.
No final, Cândido conclui que, onde quer que se esteja, o mal está por toda a parte. Por isso se deve “cultivar o jardim” e “trabalhar” para suportar todos os revezes, de forma a que se possa ter uma existência um pouco mais suportável. O que Voltaire quer dizer quando conclui que “cultivar o jardim e trabalhar” não são atos de resignação mas o reconhecimento da “ignorância” contra o otimismo, é que existem alternativas para contrapor o bem contra o mal. Basta que pensemos um pouco e encontremos a solução que nos pareça a mais satisfatória.
Mas não quero tratar aqui o debate teológico-filosófico, e sim a postura tomada pelos personagens criados por Voltaire, diante do atual debate ecológico.
Pangloss encara que como o mundo está bem ordenado, ele pode superar seus limites e se encarregará de reordenar o eco-sistema. Há vários cientistas e economistas que endossam esta linha de pensamento. Os Pangloss da era moderna geralmente fazem três grandes críticas a cientistas e ambientalistas. A primeira afirmação é que há poucas provas de que o clima está esquentando mesmo. O economista britânico Nigel Lawson, ex-secretário do Tesouro de Margaret Thatcher, diz que a temperatura média do planeta subiu e desceu várias vezes nos últimos 150 anos. “Enquanto a quantidade de carbono na atmosfera aumentou continuamente, as médias de temperatura são mais cíclicas”, escreveu ele em um artigo recente. A segunda afirmação é que, mesmo que exista uma tendência para o aquecimento, ela está mais ligada aos fatores naturais, como a atividade solar, que à ação humana. O terceiro argumento é que, se a Terra estiver mesmo esquentando por causa das emissões industriais, vale mais a pena gastar dinheiro remediando as conseqüências disso, como as perdas agrícolas e a elevação do nível do mar, que tentar reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa, como preconiza o Protocolo de Kyoto.
No final da aventura de Cândido, o jovem conclui que, se o mal está por toda a parte, a solução é “cultivar o jardim”, o trabalhar tem por finalidade superar os revezes, de forma a tornar a existência suportável. Sua percepção de mundo e de finalidade é equiparável ao Pregador, autor de Eclesiastes, que ao observar a injustiça e maldade presente no lugar do direito conclui que o melhor é o homem gozar do fruto de seu trabalho (Ec 3,22). Como o Pregador, Cândido é o “filósofo ignorante”. Porém, essa ignorância seria o reconhecimento dos limites da razão humana em debater-se sem jamais encontrar uma resposta satisfatória (Assim também escreveu Nicolau de Cusa). Por esses motivos, Cândido, é uma figura interessante a espelhar como alguém que busca o campo de ação em vez só do discurso. Cândido é sereno, ponderado, preocupado com a realidade. Até acreditava que o mundo e suas leis estão muito bem ordenados, mas se eu não cultivar o meu jardim, de nada adianta.
O cultivar jardim de Cândido é o paradigma da ação que não espera ver como o meio ambiente vai se virar para reverter suas crises, mas envolve-se num meio de produção que traga satisfação à vida, de forma simples e ligada à terra.
A postura que adotamos diante do acelerado aquecimento global, e a crise do meio ambiente em geral, será muito importante para o futuro do nosso planeta. Os pessimistas dirão que o mundo está se acabando. Sua pregação crítica abordará a gravidade da crise ecológica – que não é o caso de Cândido. Já os otimistas ressaltarão que o eco-sistema sempre teve seus momento de crise e a todas elas superou-se. Para uns, problemas; para outros, soluções. Cândido é o meio termo neste problema. Crer que sua participação simples neste processo é o melhor a se fazer diante do problema. Como Cândido, devemos refletir sobre tudo, e procurar nosso campo de ação que repercuta em benefícios ao meio ambiente e conseqüentemente a nós.

