Uma Perspectiva Cristã da Ecologia
Extensão reflexão do Rev. Paulo Damião, com muitas citações de autoridades na área, de 22/08/2007:
Para se estabelecer uma Perspectiva Cristã da Ecologia, podemos usar a terminologia que, em geral, é utilizada quando se trata do assunto: Mandato Cultural.
O MANDATO CULTURAL
1. Definições
Entende-se como mandato cultural, a primeira ordem dada por Deus, à raça humana, logo após o ato da criação. Ainda no Éden e bem antes da queda, o ser humano, homem e mulher, criados por Deus, foram envolvidos pelo Criador em algumas tarefas e funções, especialmente, a de estabelecer regras para sua sobrevivência no relacionamento pessoal, interpessoal, com as demais criaturas e com toda a natureza.
C. René Padilha, teólogo latino-americano, assim define o mandato cultural :
O homem é a imagem de Deus, porque o representa e está investido de sua autoridade. O Deus, ao qual o homem se parece é aquele que cria o universo e os seres viventes por meio de sua palavra, mas, imediatamente, faz uma imagem de si próprio e o coloca no mundo como seu representante. É o Criador que implanta no Homem sua própria criatividade e faz dele seu legítimo representante, confiando-lhe a mordomia de sua criação. Ao Homem, como sua imagem, seu representante, Deus dá faculdade de reproduzir-se e confia a mordomia do mundo. A tarefa humana fundamental é o governo da realidade criada, em representação a Deus e sob sua autoridade. Esse é o Mandato Cultural, em cujo cumprimento o ser humano manifesta, efetivamente, que é Imago Dei. O Homem completo, como ser somático e espiritual, assemelha-se a Deus porque a ele foi confiada a mordomia da criação. Nisso se radica a base da responsabilidade humana no uso e cuidado dos recursos naturais, bem como, no desenvolvimento científico e tecnológico.
Para J. Stott, teólogo britânico, o Mandato Cultural se estabelece em três afirmações legítimas :
- Deus deu ao homem domínio sobre a terra. Assim, pois, desde o princípio, os seres humanos foram dotados de uma dupla unicidade: têm a imagem de Deus (que compreende qualidades racionais, morais, sociais e espirituais que tornam possível nosso conhecimento d’Ele), e exercemos domínio sobre a terra e suas criaturas. De fato, o caráter único do domínio sobre a terra se deve ao caráter único da nossa relação com Deus.
- Este domínio é corporativo. Ao exercer o domínio recebido de Deus, não se cria os processos da natureza, senão que se coopera com eles. Neste sentido é um senhor, de acordo com o propósito de Deus e seu mandato. Porém, também, é um filho em sua dependência última da providência paterna de Deus, que é quem lhe dá a luz do sol, a chuva e estações frutíferas do ano.
- Este domínio é delegado e portanto, responsável. O domínio que exercemos sobre a terra, não nos pertence por direito, senão, somente por favor. A terra nos “pertence” não porque a criamos nem porque somos seus proprietários, senão, porque seu Criador no-la tem confiado para dela cuidar.
Timóteo Carriker, missionário e missiólogo no Brasil, assim define o mandato cultural:
A imagem de Deus imputada no homem, a de “reinar” ou “dominar”, que é constatada em Gênesis 1.26, é elaborada logo depois nos versículos 27 e 28. O versículo 27 esclarece que esta tarefa pertence ao homem no sentido genérico, isto é, ao homem e à mulher. Somente os dois juntos realizam a primeira ordenança de Deus, e nenhum dos dois só, é capaz de realizá-la (CARRIKER, 1992, p.23).
Derek Kidner, no seu comentário sobre Gênesis, assim se expressa:
O domínio sobre todas as criaturas é “não o conteúdo, mas a conseqüência” da imagem divina, (citando Delitzsch). Tiago 3:7,8 assinala que, em grande parte, ainda o exercemos - com uma exceção fatal. Hebreus 2:6-10 e 1 Corintíos 6:3 prometem a exaltação do homem redimido a uma posição superior a dos anjos (cf. Ap.4:4). Em doloroso contraste, o nosso recorde humano de exploração daquilo que está à nossa mercê, prova a inaptidão dos seres decaídos para governar, estando nós mesmos desgovernados (cf. o tom sinistro de 9:2) (KIDNER, 1997, p.49).
Quando se estuda sobre o papel do ser humano no mundo, nunca devemos fazê-lo partindo só do ponto de vista de um teólogo, mas, também, observar como os cientistas analisam a sua função, no projeto de Deus. Um bom exemplo dessa visão, é o trabalho do engenheiro Paulo José F. de Oliveira, em seu livro: Uma Sinfonia para a vida. Assim ele se expressa:
Não há como ocultar a intenção do texto: o homem foi colocado sobre a terra para exercer domínio e controle sobre todas as formas de vida! É interessante notar que o texto não diz que o homem tem o domínio sobre a Natureza, no sentido de que a ele foram entregues os rios, os mares, as terras e a atmosfera, mas, ao homem foi dado, tão somente, o domínio sobre a vida, permanecendo a Natureza, diretamente ligada ao Criador, enquanto base de apoio da vida. Sabemos que, para a tradição judaica o nome de qualquer coisa significa a essência dessa mesma coisa, de modo que o nome traduz o que a coisa é. Por isso, havia o cuidado em dar aos filhos nomes que tivessem um sentido bem determinado, em geral, ligado às circunstâncias do nascimento da criança. Também, dar o nome é um direito dos pais, o que significa uma confirmação de sua autoridade paterna. Portanto, ao permitir que o homem denomine o que foi criado, Deus reafirma a primazia do homem sobre a vida criada e os seus direitos de dominador. No versículo 5 de Gênesis 2, lemos que não havia, ainda, nenhum arbusto e nenhuma erva na Terra, em parte porque, até então, não havia chovido, mas também, porque “não havia homem para cultivar o solo”. Arbustos, ervas, árvores, sementes, frutos, chuva, enfim, toda a criação só se justifica se nela existir o homem para quem essas coisas foram criadas! Talvez, nenhuma outra passagem desta narrativa da criação seja tão marcante quanto esta, em sua capacidade de mostrar a intencionalidade da criação e a primazia atribuída ao ser humano. De forma concisa e extremamente clara, temos aqui indicadas as atividades básicas do ser humano: trabalhar e conservar a Natureza. Trabalhar para prover o sustento material de que carece para preservar a sua existência, produzindo toda a gama de serviços e bens que o estilo de vida de sua época indique como necessários. (OLIVEIRA, 1994, ps.47, 51 e 57).
Para o Dr. Ernest Lucas, cientista e teólogo, pós-graduado em Química pelas universidades de Carolina do Norte e Oxford, nos Estados Unidos, fazendo uma leitura teólogico-científica do livro de Gênesis, em seu oportuno livro: Gênesis Hoje, define assim o Mandato Cultural:
As ordens de dominar a terra, em Gênesis 1:28, e de cuidar do jardim do Éden, em Gênesis 2.15, forneceram um estímulo religioso para o estudo científico da natureza. Isso era visto como uma forma de cumprir esses mandamentos. Aliás, alguns entendiam que era uma forma de cooperar com Deus (LUCAS, 1994, p.23).
Através do Dr. Charles van Engen, professor adjunto de Teologia de Missões na Escola de Missões Mundiais do Seminário Teológico Fuller, tive acesso aos originais de um livro a ser lançado, de autoria do Dr. Arthur Glasser, professor na mesma escola e que popularizou a expressão Mandato Cultural, no meio teológico evangélico. No citado livro, intitulado Announcing the Kingdom (Anunciando o Reino), ele assim define o Mandato Cultural:
As primeiras responsabilidades que Deus deu a Adão e Eva, tornam explicitas certas atividades que integram a verdadeira essência, como seres humanos. Essas atividades, primariamente, envolviam sua existência como seres sociais: vida a dois (procriação e fazer surgir a humanidade), trabalho (domínio, cultivo, guarda) e governo. Deus usou palavras chaves como: dominem, cultivem, preservem e coloquem nomes em todas as criaturas. Essas ordens, marcam o início de uma série de outras obrigações, ainda por vir: constituir família e comunidade, estabelecer a lei e a ordem, fazer surgir as culturas e civilizações e as preocupações ecológicas que se ampliam e se aprofundam, através das Escrituras. Através destas responsabilidades ou Mandatos, Deus chama todos os que trazem sua imagem e semelhança, para serem mordomos da criação, participando assim, com responsabilidade, nesta tarefa. Não é surpresa o fato de que, ao criar a raça humana, de acordo com sua imagem e semelhança, Deus transfere para os seres humanos seu próprio instinto criativo. Esse instinto criativo, é admitido como secundário e derivado, pois, é limitado pelo potencial de cada um e pela disponibilidade de material com o qual se possa expressar essa função criativa. Além disso, este instinto precisa ser descoberto, treinado e então usado como serviço em favor de outros e não para o próprio poder, benefício e deleite. Isso significa que, as possibilidades criativas devem ser mostradas claramente e colocadas, firmemente, para capacitar todo aquele que estiver no seu exercício, em benefício de outros. Somente fazendo isso, podemos ter certeza da preocupação de Deus pelo bem de todos. Isso nos confronta com a principal prioridade do Reino de Deus: O Mandato Cultural. Literalmente, implica que, enquanto a raça humana exerce controle sobre a terra, sob a direção de Deus e para Sua glória, encontrará, também, resistências.
Devido à existência da serpente que tentou Eva, devemos concluir que, desde a criação, os poderes começaram a usurpar o governo de Deus sobre a terra e que a intenção de Deus, na criação, era uma chamada decisiva e completa a um povo que deveria participar Dom Ele em sua restauração? De fato, a colocação de Adão no jardim, para administrá-lo e guardá-lo, toma um significado maior, quando compreendemos que a palavra hebraica para guardar (shamar) é um termo militar (GLASSER, ainda não editado, pg.47).
Entretanto, nossa compreensão do que é o Mandato Cultural, não fica restrita, apenas, às definições acima, mas e sobretudo, pelo que nos é revelado nos relatos da criação, encontrados no primeiro livro da Bíblia, Gênesis, o Livro dos Começos! É o que veremos a seguir.
2. O Mandato Cultural nos Relatos da Criação
Percebamos alguns detalhes deste mandato, no relato da criação:
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja pela terra. E disse Deus, ainda: eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície da terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente. Isso vos será para mantimento. Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim para o cultivar e o guardar. Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos. (Gn1:26-29; 2:7-8, 15, 19-20).
É importante notar que, o presente conjunto de ordens, foi dado logo após a formação da raça humana:
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou: homem e mulher os criou (Gn 1:27).
Este mandato, desde o seu início, implica nas principais áreas da vida humana, nas quais, seria necessário estabelecer uma cultura ou até, culturas, que projetassem um modo de vida. O homem e a mulher deveriam, juntos, administrar a experiência familiar e social que tinham diante de si (multiplicar, encher, dar nome); a responsabilidade econômica e ecológica (sujeitar, cultivar, guardar) e de governo (dominar).
Deste modo, afirma Carriker:
Deus chama a humanidade para o papel de vice-regente sobre o mundo; todos devem participar, responsavelmente, nesta tarefa (CARRIKER, 1992, p.24).
O Congresso Latino Americano de Evangelização III, CLADE III, promovido pela Fraternidade Teológica Latino-americana, em Quito, Equador, em 1992, teve como tema: Todo o Evangelho para o Homem todo e todo Homem, a partir da América Latina, e apresentou uma dinâmica de muita interação entre os preletores e os participantes. Os preletores, um ano antes, enviaram suas Ponências, ao escritório central, que as distribuiu, aleatoriamente, entre os congressistas, a fim de reagirem às colocações, sugerirem alterações, fazerem observações, etc. Como um dos congressistas, tive o prazer de reagir à palestra elaborada por Juan Stam, um dos grandes teólogos contemporâneos, cujo conteúdo, estava relacionado com a criação e o tema era: O Evangelho da Nova Criação.
Além de reagir à sua ponência, pude ouvi-lo com muita atenção, por ocasião do Congresso. Logo após a apresentação da palestra, iniciava-se um outro momento de interação: uma comissão, previamente convocada, reagia publicamente, apontando pontos fortes e fracos. Em seguida, era aberto para o plenário apresentar suas perguntas. Deste modo, Stam teve muito material para, melhorar ainda mais sua palestra, transformando-a no livro: O Evangelho da Nova Criação, que, foi de fundamental importância para a elaboração deste trabalho e, precisa ser lido por aqueles que desejam entender, com mais profundidade, a íntima relação entre a criação e a redenção. Assim, o trabalho exegético e hermenêutico, elaborado por Stam, sobre os textos de Gênesis 2 e 3, é extremamente necessário que seja analisado:
Gênesis 2 e 3, descrevem Yahvé Elohim, como uma espécie de “Deus trabalhador”. Deus “formou” (yatsar) a Adão, “plantou” (natac) o jardim e “construiu” (banah) a Eva do osso de Adão. São três termos os mais humanos possíveis, usados constantemente para os ofícios correspondentes a oleiro ou escultor (Is.45:9; 64:8), agricultor e carpinteiro. Em particular, o verbo yatsar é usado para numerosos aspectos da ação salvífica de Deus: Deus “formou” a Israel (Is.43:21; 44:1s,24; cf.27:11). Também, natac, pode ter sentido salvífico: Deus “plantou” a Israel (Jer.2:21; 11:17; 31:28). Em outras passagens, o verbo banah se aplica a Israel. Deus promete a Davi construir uma casa e um trono (2 Sm.7.27; Sal.89.3s.); depois, promete reconstruir o povo no seu retorno do cativeiro (Sal.102:16s; 147:2). Este relato, no hebraico original, se caracteriza por uma série de jogos de palavras, tão simpáticos como significativos. Destes, três são especialmente importantes, segundo a evidente intenção do autor: 1.- Em 2:7, o autor diz que da terra (adamah), Deus fez adam; o jogo adamah/adam destaca, fortemente, a inseparável e essencial vinculação entre o ser humano e a terra, entre homos e humus. Aqui, temos uma forma muito diferente da do capítulo 1º. Uma nova e dramática insistência na materialidade, que depois, vai caracterizar todo o plano da salvação; 2.- O segundo jogo de palavras, destaca a solidariedade misteriosa e profunda entre ish (varão) e ishah (varôa) (2:23), conforme homem/mulher, unidos, inseparavelmente, numa vida comum; 3.- Do nome “Eva”, se faz um jogo com a palavra “viver” (Gn.3:20 - Eva, javah; viver, jayah)(STAM, 1994, p.26).
É ponto fundamental da fé cristã, confessar o mesmo que o autor da Carta aos Hebreus, quando declara, introduzindo o maravilhoso texto do Heróis da Fé: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11:3).
É com esta convicção que Morris afirma:
No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Quando cremos de fato neste versículo, temos pouca dificuldade de crer em todo o restante da Palavra de Deus. Este único versículo refuta a todas as diversas pseudo-teorias inventadas pelos homens, acerca das origens. O ateísmo, inequívoca negação da existência de Deus, é falso porque Deus é. O materialismo, que pretende explicar todas as experiências da vida em termos de leis físicas e nega a necessidade de crer em Deus, como Causa eficiente de todas as coisas, é falso porque, aqui se vê que a matéria, um dia, começou a existir. O dualismo, ensinando que há dois princípios eternos, até mesmo dois seres divinos - um mau e outro bom - em oposição mútua, é falso porque, no princípio havia Deus somente. O panteísmo, que afirma que tudo é Deus e Deus é tudo, identificando Deus e a natureza, insistindo na eternidade da matéria e asseverando que a matéria pode, de si própria, originar vida, é falso porque, Deus estava fora de Sua criação. O politeísmo, que é culto a muitos deuses, é falso porque só havia um Deus criando. O evolucionismo, definido como a teoria de que, mediante processos naturais e por transformação gradual, todas as coisas derivam de materiais pré-existentes, é falso porque céus e terra foram criados (MORRIS, 1984, p.9).
A confiança no relato da criação, determina nossa convicção no presente e, também, com perspectivas no futuro, pois, sempre quando Deus cria, Ele o faz com algum propósito bem definido. Biéler, chega a afirmar que, esta confiança é que poderá levar, o ser humano, à alguma melhoria de vida:
Quem é este estranho ser que se chama homem? Donde vem e para onde vai? Por que meios ele pode conhecer-se a si mesmo com segurança? Se não sei quem sou, não há amor possível, o homem e a mulher se buscam sem jamais se encontrarem, o trabalho torna-se estupidez, a sociedade humana não pode ser edificada, não há nenhuma esperança em nenhum lugar (BIÉLER, 1970, p.9).
É curioso notar que, por mais que cientistas queiram desatrelar ou afastar o relato da criação do seu mundo, fica mais difícil de se atender às demandas da sociedade atual. A própria racionalidade humana, só pode ser explicada pela crença de que há uma mente infinita, por detrás da natureza.
Ernest Lucas, citando a afirmação do filósofo, prof. J.Mac-Murray, nos aponta para o fato de que, somente a mentalidade cristã pode gerar o nascimento da ciência como tal: a ciência é o filho legítimo de um grande movimento religioso e sua genealogia remonta a Jesus.
De maneira categórica, para expressar a importância de se crer nos relatos da criação e que, o pensamento cristão, foi fundamental para o progresso da ciência, como tal a conhecemos, o mesmo Lucas afirma:
Com todas as grandes civilizações conhecidas no mundo, por que a ciência moderna nasceu na Europa Cristã no final da Idade Média? O conhecimento acerca do mundo e as técnicas em posse das outras culturas não eram suficientes em si para manter em andamento a ciência como a conhecemos. Os gregos, os hindus do Vale do Ganges, os árabes e os outros povos possuíam conhecimento e técnicas consideráveis, mas, nunca desenvolveram a ciência como um movimento progressivo. O que lhes faltava era a estrutura certa que pudesse dar confiança e motivação para as pessoas, fazendo com que o estudo científico florescesse. Até isso foi proporcionado pelo cristianismo. A investigação científica só encontrou solo fértil depois que a fé num criador pessoal, racional, realmente impregnou toda uma cultura, a partir dos séculos da Idade Média Alta. Essa foi a fé que forneceu uma dose suficiente de crédito na racionalidade do universo, confiança no progresso e valorização do método qualitativo - todos eles, ingredientes indispensáveis da investigação científica. A Bíblia ensina que o mundo foi criado por Deus a partir do nada, por um ato de livre vontade (Hebreus 11:3). A cada instante, o mundo depende de Deus para continuar existindo (Hebreus 1:3). Uma vez que Deus agiu livremente e não podemos ter a pretensão de adivinhar o que ele fez, o único meio que temos para fazer descobertas acerca da criação e entendê-la é o estudo pelo método da observação e da experiência. O Deus da Bíblia é um criador pessoal, racional, digno de confiança. Portanto, podemos esperar que sua criação seja ordenada e racional. Passagens como Gênesis 1 e 8:22 sustentam essa conclusão. Foi sobre esse fundamento que os primeiros cientistas desenvolveram o conceito de leis naturais e começaram a procurá-las (LUCAS, 1994, p.22-23).
A posição cristã, inegociável, estabelece o agir, sempre, a partir de Deus! No princípio, Deus! (Gn 1.1). É o oleiro que faz do barro, o ser vivente, conforme afirma Von Allmen:
Convém sublinhar o caráter fortemente teocêntrico desta narrativa. Nada acontece a não ser por Deus. No ápice da obra divina ergue-se o homem criado, reflexo visível do criador, príncipe do mundo da graça, da luz e da vida. O segundo relato transporta-nos a um deserto árido, inacessível à vida, imensa extensão de argila seca, mas, eis que da terra brota uma água regando a superfície do solo. Desta argila umedecida, Javé, como um oleiro, forma uma estatueta. Soprando-lhe ele nas narinas ela se torna ser vivente (VON ALLMEN, 1972, p.77).
A origem, a essência e o propósito do homem, se tornam claros e especiais, nos relatos da criação, pois, em relação a todas as outras criaturas, as narrativas são menores e sem muitos detalhes. Entretanto, há uma especial atenção, um registro mais demorado e alongado.
Essa especial atenção dedicada à origem do homem serve como evidência de que o homem é o propósito e o fim, a cabeça e a coroa de toda a criação.
Em primeiro lugar, há o especial conselho de Deus que precede a criação do homem. Ao chamar à existência as outras criaturas, nós lemos, simplesmente que, Deus falou e essa fala de Deus trouxe-as à existência. Mas, quando Deus está prestes a criar o homem Ele primeiro conferencia consigo mesmo e decide fazer o homem à Sua imagem e semelhança. Isso indica que, especialmente, a criação do homem repousa sobre a deliberação, sobre a sabedoria, bondade e onipotência de Deus.
Em segundo lugar, nesse conselho particular de Deus, a ênfase especial é colocada no fato de que o homem é criado segundo a imagem e semelhança de Deus, e portanto, possui um relacionamento com Deus, totalmente diferente daquele que as demais criaturas possuem.
Em terceiro lugar, não foi apenas o homem, nem apenas a mulher, mas os dois, em sua interdependência, que foram criados à imagem de Deus. Eles são portadores dessa imagem não somente para si mesmos, mas, também, para sua posteridade.
Em quarto lugar, a Escritura expressamente menciona que essa criação do homem à imagem de Deus, deve expressar-se, especialmente, em seu domínio sobre todos os seres vivos e na sujeição do Senhor de toda a terra. O homem é o rei da terra porque ele é o filho ou a geração de Deus. Ser filhos de Deus e herdeiros do mundo são duas coisas estreitamente relacionadas uma com a outra, inseparavelmente unidas na criação (BAVINK, 2001, p.199-200).
J. Stott, ao se deparar com os relatos da criação, encontra neles o que ele chama de Dignidade Humana, que se estabelece por três relações:
A primeira é a nossa relação com Deus. Os seres humanos são seres de semelhança divina, criados a imagem de Deus, segundo Seu propósito. A imagem divina compreende aquelas qualidades racionais, morais e espirituais que nos separam dos animais e nos vinculam a Deus.
A segunda é a nossa relação uns com os outros. O Deus que criou a humanidade é um ser social, um Deus que compreende em si mesmo três pessoas, eternamente distintas. Portanto, Deus fez o homem varão e a mulher e lhes mandou procriar. A sexualidade foi criada por Deus, o casamento foi instituído por Ele e o companheirismo humano estava em Seu propósito, quando disse: “Não é bom que o homem esteja só. De maneira que, todas as liberdades humanas que chamamos de santidade do sexo, o casamento e a família, o direito de se reunir e o direito de ser respeitado, sem distinção de idade, sexo, raça ou condição, correspondem a Segunda categoria de nossa relação de uns para com os outros.
A terceira é nossa relação com a terra e suas criaturas. Deus nos tem dado o domínio, com o mandato de sujeitar e cultivar a terra fértil e governar sobre suas criaturas. De modo que, os direitos humanos que chamamos de direito ao trabalho e ao descanso, o direito de participar dos recursos da terra, o direito à alimentação, o vestir e o morar, o direito a vida e a saúde e a sua proteção, assim como a libertação da pobreza, da fome, da enfermidade, correspondem à terceira classificação da relação com a terra (STOTT, 1991, p.167).
A experiência com Deus, parte do momento em que, não se crê n’Ele, apenas, como Salvador e Senhor da nossa vida, mas e também, quando se crê que Ele é o Senhor do mundo, de todas as coisas. Para Huberto Rohden, em sua clássica obra: Filosofia Cósmica do Evangelho, esta fé é primordial, quando afirma:
A alma do evangelho é uma experiência individual com Deus (que costumamos chamar de verticalidade), e que, se for genuína, terá necessariamente os seus reflexos sobre a vida ética e social do homem (apelidada freqüentemente de horizontalidade). Para que alguém tenha esta experiência de Deus, tem de criar em si mesmo um ambiente propício para a mesma, tem de realizar no seu interior uma espécie de atmosfera ou clima em que a delicada plantinha desse encontro com o Infinito possa brotar e medrar. Esse ambiente favorável consiste essencialmente em dois fatores básicos: fé e vida.
Fé - deve o homem, antes de tudo, crer na realidade de um mundo invisível, embora ainda não tenha dele experiência direta. Esse crer é uma espécie de permanente atitude de humildade, sinceridade, receptividade, um senso de vacuidade ou nulidade do próprio ego físico-mental, unido à ansiosa expectativa e certeza de uma plenitude que lhe possa e dava advir de fora. Esse “de fora”, é uma locução provisória, porque, de fato, a plenitude divina não vem de fora do homem: vem do mais profundo abismo dentro dele, vem do íntimo centro do próprio homem, não desse homem periférico, físico-mental que ele conhece habitualmente, mas vem das incógnitas profundezas do seu Eu racional, espiritual, divino, que lhe é tão desconhecido e tão “longínquo” como a presença da energia nuclear dentro dum átomo não desintegrado.
Vida - fé vivida! A fé nunca passará a ser experiência direta de Deus se ficar no terreno meramente intelectual ou dogmático-ritual; é indispensável que ela se encarne na vida total do homem, ou, no dizer de Santo Agostinho, que se torne “fides quae per charitatem operatur”(fé que atue pelo amor). Quando o homem sintoniza toda a sua vida individual e social pelo conteúdo da sua fé, quando vive o que crê, como se já possuísse experiência direta de Deus, então essa fé concretizada em amor universal desabrochará em experiência imediata do mundo divino, porque encontrou ambiente e clima propício ao seu desenvolvimento. O crente torna-se, então, um ciente, um sapiente, um vidente. Já não crê simplesmente - sabe! A magnífica frase de Albert Schweitzer: O cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo, resume, lapidarmente, o que entendemos por Cristianismo cósmico.
Quem afirma o mundo sem o ter negado, é materialista e idólatra.
Quem nega o mundo sem ter a coragem de o afirmar, é asceta espiritualista.
Quem afirma o mundo depois de o ter negado e continuando a negá-lo, internamente, pelo desapego, esse é cristão genuíno e integral, homem cósmico.
O verbo se fez carne para que a carne se pudesse fazer Verbo…
O espírito se materializou para que a matéria pudesse se espiritualizar…
Quem adora o mundo é idólatra.
Quem odeia o mundo é desertor.
Quem ama a Deus no mundo e o mundo em Deus, é homem cósmico, crítico! (ROHDEN, p.9-12).
A presença do Deus criador, ainda se faz necessário pois, por mais que a ciência se desenvolva, ela ainda continua devendo respostas às questões básicas da vida humana, questões estas que, são respondidas pela fé na Palavra de Deus e no Deus da Palavra.
A ciência moderna contém teorias acerca da origem do universo, da origem do sistema solar e, claro, da origem da vida na terra. Todas elas expressas em termos puramente materialistas, sem nenhuma referência a Deus: será que isso significa que os cientistas provaram que o Deus criador é desnecessário? O máximo que o cientista pode afirmar acerca da teoria da origem do universo, por exemplo, é que ela explica como Deus, criou o universo; qual foi o mecanismo usado. Sem dúvida, ela não torna dispensável o Deus da Bíblia. Os cristãos acreditam num Deus que idealizou e criou a matéria, a energia e o tempo, além das leis e das forças fundamentais da natureza que regem a atividade deles. E mais, Ele continua mantendo-os em atividade. Ele era livre para criar o universo por qualquer processo que escolhesse, e o cientista é livre para estudar o universo para ver se consegue descobrir e entender esse processo (LUCAS, 1994, p.27).
Para Bavink, um dos destacados teólogos calvinista, do final do século XIX, o conceito de Mandato Cultural, foi expresso na frase:
Em Gênesis 2, é a ordem probatória dada ao homem!
Esta ordem probatória, tinha duas tarefas: primeiro - cultivar e preservar o jardim; segundo - comer livremente de todas as árvores, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A primeira tarefa define seu relacionamento com a terra, enquanto a segunda, define seu relacionamento com o céu. O homem só poderia cumprir sua missão com relação à terra, se ele não tivesse quebrado a conexão que o unia ao céu, ou seja, somente se ele continuasse a obedecer a Deus. Ele deveria servir a Deus e servir-se a si mesmo, enquanto servia à terra.
Trabalho e descanso, domínio e serviço, vocação terrena e celestial, civilização e religião, cultura e culto, esses pares caminham juntos desde o princípio. Eles pertencem e estão contidos na vocação do grande, santo e glorioso propósito do homem. Toda cultura, isto é, todo trabalho que ele realiza para subjugar a terra, seja através da agricultura, da pecuária, do comércio, da indústria, da ciência, ou de qualquer outra forma, é o cumprimento de um mandato divino. Mas, para que o homem, realmente, cumpra esse mandato divino, ele tem de depender e obedecer à Palavra de Deus. A religião deve ser o princípio que anima toda a vida e que a santifica, a serviço de Deus (BAVINK, 2001, p.203).
Para Agostinho, o grande teólogo cristão do IV Século, suas noções de criação podem ser assim resumidas:
Deus fez tudo por criação. O mundo, pois, não é antidivino. Porque Deus criou o mundo livremente, por isso está perto dele. Porque o criou do nada, existe uma distância. Tudo, pois, sem exceção é bom. Também a matéria pela criação ex nihilo. Esta é uma afirmação constante de Agostinho, que procura explicar esta criação, afirmando que Deus cria o mundo sem uma matéria prima preexistente sobre a qual agiria o ato criador. A criação tem a sua universalidade: o mundo tem começo, ele é temporal, não é eterno. A criação é obra da Trindade. Deus cria por amor. A criação é teofania, espetáculo de luz e de vozes que proclama a beleza de Deus, através de sua própria beleza. Para se ver a natureza de Deus é preciso a superação do materialismo e a elevação da humildade. Pergunta que é o que ama um homem, não perguntes pelo que sabe. Não existe nada mais querido a Deus do que sua imagem. Por isso, colocou ele tudo debaixo do homem e o homem debaixo de si. Queres que tudo o que Deus fez esteja aos teus pés? Fica debaixo de Deus… De tal maneira Deus ordenou as coisas criadas que colocou a sua imagem debaixo de si e tudo o mais debaixo dela (Sermão 313, A, 2, e 20, A, 2-3) O homem tem sido para Agostinho um mistério e um ser surpreendente. Os seres humanos são os mais preciosos da criação. Esta interpretação da criação, eminentemente antropocêntrica, é também, agostiniana. Devemos acrescentar que ele, o homem, é o guardião e agricultor da criação e, ao mesmo tempo e enquanto tal, totalmente dependente e orientado para Deus. Agostinho não concorda com os autores que defendem que o mundo criado por Deus desenvolve de um modo completamente autônomo para além de qualquer outra influência de Deus. Esta opinião leva a negar uma relação estável entre a criação e seu Deus (SILVA, 1996, p.32, 41,42,43).
Na análise dos conceitos de Agostinho sobre a criação e a criação do homem, em especial, Romano se expressa:
A essência vivente, isto é, a Vida, em seu estado complexo e emergente é o autor dos seis dias, em um processo que se expressa na matéria, para alcançar plena consciência dialogal com o Criador. A matéria, por conseguinte, não existe por si, mas é Vida em sinal. Os físicos diriam que é energia despontenciada. O Gênesis explica que esta vai constituir o caminho de conscientização da Vida. Na criação divina, a matéria tem, dessa maneira, uma colocação secundária. A matéria possui seus direitos próprios, mas só se estiver unida à Vida, portanto, com o Homem, que é o vértice da primeira história e é o princípio da Segunda. Ele é a continuidade da criação, o ponto máximo da individualização da essência vivente. Por isso, sua consciência está em constante evolução, e cresce e plena tensão, para chegar ao final, o Eu de Cristo que é o Eu da Vida. Mas, o homem, além da consciência, enquanto sinal da Vida, é também, intrinsecamente, matéria: é um e um corpo (SILVA, 1996, p.44).
A figura de Deus como rei e regente de todo o universo, deriva-se do fato d’Ele ser o criador de todo o cosmos, bem como, vendo neste mesmo universo o grande palco da Sua atuação.
Antes de ser o Deus de Israel, ele é o Deus do universo. Antes de ser o Senhor da Igreja, é o Senhor de tudo. (Mesmo o título usado no Antigo Testamento, Adonai, tem o sentido de “Senhor de tudo”, ou “Senhor absoluto”, em vez de Adoni, forma esta que significa “meu Senhor”, representando, por exemplo, um deus particular de um indivíduo ou de uma nação (CARRIKER, 1992, p.13).
Na decisão divina de fazer o homem, percebe-se também que, ao ser criado no sexto dia, ele partilha da criação de outras criaturas, no mesmo dia, é feito do pó e alimenta-se como elas. Uma vez mais, a íntima relação entre a raça humana, a terra e o restante da natureza, se estabelece de maneira tácita, numa perspectiva e propósitos divinos de ressaltar uma grande interdependência entre ambos.
O homem é retratado como ao nível da natureza e acima dela, em continuidade em relação a ela, e em descontinuidade. A nota de auto-comunhão e o plural majestático: Façamos, proclamam-no um momentoso passo; isto feito, a criação inteira está completa. Em comparação com os animais, o homem é colocado em posição à parte por seu ofício. Se a palavra imagem parece demasiado pictória, há o restante da Escritura para governá-la. Mas, de um só golpe ela imprime na mente a verdade central a nosso respeito. As palavras imagem e semelhança se reforçam mutuamente; não consta “e” entre as frases, e a Escritura não as emprega como expressões tecnicamente distintas, como querem alguns teólogos. Segundo estes, a “imagem” é a indelével constituição do homem como ser racional e como ser moralmente responsável, e a “semelhança” é aquela harmonia com a vontade de Deus, perdida na queda (KIDNER, 1997, p.47-48).
Um outro destaque importante, que se encontra no texto bíblico, onde se percebe o Mandato Cultural, é que, este ato divino é precedido com um gesto abençoador de Deus: E Deus os abençoou. Assim, todas as vezes que o ser humano executa alguma parte do mandato, quer saiba ou não, quer concorde ou não, ele o faz debaixo da benção de Deus.
É neste momento, que se estabelece a transmissão de autoridade e de co-participação. Deus reparte da Sua autoridade com a humanidade e o faz com um desejo de estabelece-la como parceira, na administração do universo. A noção de bênção, em toda a Bíblia, não é aquela mais aceita pelo povo de Deus, em geral, quando se pensa só nos privilégios, mas, também, precisamos lembrar que, quando Deus abençoa, Ele o faz com propósitos. Assim, nesta primeira bênção que as Escrituras mencionam, vemos o conceito pleno de bênção que devemos ter em nossas mentes e corações: somos abençoados para abençoar!
Deus não apenas, conferiu uma dádiva, mas, uma função. É o ponto mais alto de toda a criação, pois, além de vê-la como muito boa, Deus, também, abençoa aqueles que dela vão cuidar.
Mathias Quintela de Souza, pastor presbiteriano independente, em um trabalho sobre o assunto em pauta, assim se expressou:
Antes de criar o Homem, Deus cria todas as coisas, de acordo com o conselho da Sua vontade e pela palavra do Seu onipotente poder. Através do Espírito Criador, o Deus Triúno concedeu vida ao mundo e aos seres humanos que nele habitavam. Ele proclamou a bondade da criação. Como Criador, de Deus é a terra e a sua plenitude (SOUZA, 1991, p.2).
Diante disso, podemos entender que ao ser humano, não compete criar, mas, transformar. Deus lhe concedeu todas as matérias primas, as já descobertas e as que, ainda, o serão, para serem exploradas e dominadas, sempre com o supremo objetivo de que tudo reflita a Sua benção. Assim, todo o domínio deve ser sem dominação, pois, visa a Sua glória!
Ao dar o Mandato Cultural, o próprio Deus estabeleceu que este domínio deveria ser: conforme a Sua vontade, para a Sua glória e para o bem de todos.
Uma vez mais, Souza nos ajuda a entender este projeto:
Conforme a vontade de Deus - Deus criou todas as coisas com ordem e propósitos. Cabe ao homem discernir a ordem da criação e domina-la de tal maneira que, os desígnios de Deus sejam cumpridos. Pela pesquisa científica, é possível conhecer a natureza e sua leis. As técnicas para o domínio da natureza, devem ser estabelecidas pelas leis naturais. A liberdade humana fica dentro dos limites da ordem e do propósito da criação. A vontade de Deus não é arbitrária, mas, é boa, perfeita e agradável. Quando o homem administra de acordo com a vontade de Deus, ele se torna não só eficiente, como também, eficaz e efetivo no seu trabalho.
Para a glória de Deus - A indagação do propósito das coisas criadas, leva-nos à consideração do Supremo Propósito, ou, do fim último das coisas. Paulo, depois de ter expressado, quase em êxtase, a sua admiração pelas obras de Deus, concluiu: “Pois todas as coisas foram criadas por Ele, tudo existe por meio dEle e para Ele. Glória a Deus para sempre! Quando se perde este propósito de vista, o homem pode ser protagonista da história, mas, é levado a dizer, numa avaliação final dos seus esforços: ICABOD, isto é, não há glória.
Para o bem de todos - Já observamos que, em Gênesis, o mandato é dado ao casal, onde já se reflete um relacionamento de amor, amizade e solidariedade. A vida social reflete a imagem do Deus Triúno. Agindo em cooperação com Deus, o homem produz tudo o que tem necessidade, tanto em relação aos bens materiais, quanto aos valores espirituais e morais. A participação no trabalho, em todos os níveis, deve ser exigida levando em conta a capacidade de cada um; a distribuição deve levar em conta a necessidade de cada um (SOUZA, 1991, p.4-5).
A relação mais íntima entre o ser humano e a natureza, se manifesta no momento da criação, pois, até então, todas as coisas criadas o foram, pelo poder da palavra de Deus, mas, na criação do ser humano, usa-se o pó da terra, estabelecendo-se daí para frente, uma relação de interdependência. A raça humana, precisa da terra para viver e a terra, precisa da raça humana, para produzir!
Este pequeno, mas, importante detalhe deve chamar a nossa atenção na compreensão da nossa tarefa de parceiros e mordomos de Deus. A parceria só se tornou possível, porque, à massa de barro, Deus sopra o fôlego de vida (Gn 2:7). Temos aí, os conceitos de imanência, pó da terra e de transcendência, fôlego de vida. O ser humano faz parte da natureza, mas, transcende a ela, por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26).
Somos, portanto, feitos do mesmo material e frutos da mesma dinâmica cosmogênica que atravessa todo o universo. O ser humano, pela consciência, encaixa-se, plenamente, no sistema geral das coisas. Ele não está fora do universo em processo de ascensão. Encontra-se dentro, como um momento singular, capaz de captar a totalidade, de saber de si, dos outros, de senti-los e de amá-los no interior dessa totalidade desbordante (BOFF, 1999, p.116-117).
Esta relação de interdependência, nem sempre compreendida e assimilada pelo ser humano, que, ao explorar a natureza não o faz, levando em conta este conceito tão importante, pois, não se deve fazer com uma mãe, irmã e amiga, aquilo que se tem feito com a terra, o mar, as águas, os rios, enfim, todo o cosmos.
Os conceitos sobre essa imagem e semelhança, vão se desenvolvendo dentro da dinâmica da própria revelação de Deus, da compreensão da Igreja em Sua Palavra e no aprofundamento dos conceitos terminológicos, como podemos observar em Von Rad:
O motivo do homem, imagem de Deus, não implica em explicação alguma direta da natureza desta semelhança divina; seu centro de gravidade se acha, antes, na definição do fim para o qual ela foi comunicada ao homem. A dificuldade para nós está no fato de que o texto considera a simples declaração desta semelhança com Deus como suficiente e explícita. Podemos dizer a tal respeito, duas coisas: as palavras tzélém, “imagem, estátua, objeto esculpido” e demût, “semelhança, equivalência”- sendo que a segunda interpreta a primeira, salientando a noção de correspondência e de semelhança - referem-se ao homem todo, não exclusivamente à sua natureza espiritual, mas também, e principalmente, à glória de seu aspecto corporal, ao kâdâr (”ornamento”, “superioridade”, “Majestade”) e ao kâvôd com que Deus o decorou (VON RAD, 1973, p.152).
Assim elaborada, formada e colocada no Éden, lugar de delícias, a raça humana não só recebe um mandato, uma função, mas, também, tem do próprio criador, toda a capacitação e condições necessárias, para poder cumprir sua missão.
Colocada no jardim, sugestiva e poética figura para o lar, a criação provê tudo o que é necessário para a subsistência humana (toda sorte de árvore boa para alimento), beleza (árvores agradáveis à vista) e tudo isto com liberdade (árvore do conhecimento do bem e do mal (SOUZA, 1991, p.3).
Já vem de longa data, as diferentes opiniões sobre o que, de fato, significam as palavras imagem e semelhança. Como não é nosso objetivo, neste estudo, nos prolongarmos neste aspecto, ainda que ele seja de grande importância, devemos nos atentar para os reducionismos conceituais, que os referidos termos tiveram, ao longo da história. Chama-nos à atenção, as seguintes colocações:
Maimônides ensina que o hebraico toar designa a forma típica de alguma coisa, mesmo quando produzida pelo trabalho do homem, aproximadamente no sentido da palavra “modelar”. Se tivermos cuidado em ler Maimônides sobre este ponto, e separar o ranço medieval e a forte influência da filosofia de Aristóteles, certamente poderemos concordar com suas sábias palavras. Ele recorda-nos que a nossa transitoriedade reside em nossa substância (adamah) e não em nossa forma (zelem), que não pode ser destruída. As fraquezas do homem são decorrentes da sua substância, ao passo que os seus méritos provêm da sua forma. Portanto, o conhecimento de Deus, a geração de idéias, o domínio sobre os desejos e as paixões, a distinção entre o que deve ser escolhido e o que deve ser rejeitado, tudo isso o homem deve à sua forma. Ao passo que comer, o beber, o sexo, as paixões e todos os vícios estão ligados à substância do seu corpo (OLIVEIRA, 1994, p.43).
A responsabilidade humana diante de Deus, é muito grande, dado o alto valor de tudo o que foi criado, não apenas, pelo valor extrínseco, o que aparenta ser, mas, também, pelo intrínseco, pois, acima de tudo, é obra das mãos de Deus e do poder da Sua palavra, ao criar todas as coisas do nada. No princípio criou Deus todas as coisas, (Gn 1:1), o verbo criar, (bara’), tem o sentido de criar do nada, revelando o profundo e extraordinário trabalho de Deus, em criar, do primeiro ao sexto dia, uma quantidade enorme de coisas e ver que, tudo era bom (Gn 1:25). Só depois de ter criado a humanidade, é que Deus expressa o Seu grande contentamento com toda Sua obra: E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom! (Gn 1:31). Notemos que:
No primeiro capítulo (de Gênesis), o homem aparece como o vértice de uma pirâmide, é a última criatura feita por Deus. Das seis vezes que o termo hebraico bara’ (criar) aparece no capítulo 1, ocorre três vezes no versículo 27: “E Deus criou o homem segundo sua própria imagem, criando-o à imagem de Deus, criando-os homem e mulher”. K. Bart vê o homem colocado aí como parceiro, interlocutor (Gegenüber) de Deus (CIMOSA, 1987, p.79 e 81).
O poder extraordinário de Deus, se revela, não só por tudo o que criou, mas, sobretudo, pela maneira como o fez: do nada! De onde não havia vida, Ele a fez nascer; de onde só havia caos, Ele fez brotar o cosmos. Por isso, quando se tenta reduzir Deus, como um grande arquiteto do universo, é tentar diminuir Seu poder e Sua autoridade. Afinal, Ele não só deu forma, como faz um arquiteto com a matéria prima existente, mas, e acima de tudo, Ele criou do nada, todas as matérias primas já conhecidas e as que ainda, não o são.
O verbo bara’, aqui usado, só é empregado para a ação criadora de Deus. Como tal ação nunca é posta em relação com matéria preexistente sobre a qual se sobreporia, temos a concepção da criação “do nada” (VON RAD, 1973 , p.150).
Uma vez mais, citamos Souza:
Tanto a vida como a missão do homem, tem a sua origem e garantia em Deus. Ele abençoa e ordena. Ele garante a vida e, ao delegar autoridade, continua responsável. A missão é, acima de tudo, “Missio Dei”, (Missão de Deus). O homem participa desta missão, mas tudo está centralizado em Deus e não no homem. A autonomia humana é possível por causa da liberdade, mas, as conseqüências são inevitáveis. Se o homem rejeita a Ordem Divina, ele cria a desordem humana. A autoridade exercida pelo homem, na administração de tudo o que Deus criou é delegada. Por isso, ele é responsável diante de Deus. A essência dessa autoridade é o amor e a sua forma de expressão é a justiça. Quando é exercida assim, ela glorifica a Deus e promove a bem comum (SOUZA, 1991, p.2).
A Declaração de Oxford, sobre Fé Cristã e Economia, expressa sua compreensão sobre o assunto, com as seguintes palavras:
Uma vez que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, para uma vida em comunidade, e não simplesmente, para que vivessem como indivíduos isolados, cabe-lhes exercer o domínio de que foram incumbidos de maneira responsável para com as necessidades da família humana total, inclusive as futuras gerações. (Boletim da Fraternidade Teológica Latino Americana, 1983, p.12).
A releitura fundamental e necessária, que tem sido feita nos dias de hoje, nos relatos da criação, em Gênesis, tem levado o povo de Deus a entender, não apenas o projeto da criação em si mesmo, mas, também, suas conseqüências para a missão da Igreja, conforme afirma J. Stam:
A teologia da criação deve desempenhar um papel decisivo na nossa visão do evangelho, da missão, da Igreja e do nosso discipulado fiel como primícias, aqui e agora, da nova criação (STAM, 1995, p.10).
Curiosamente, acaba sendo sempre esquecido o sétimo dia, o sábado, no relato da criação. Devemos nos lembrar que, nessa idéia de descanso, passa, dentre tantos outros, o conceito de apreciação, de contemplação e de comemoração. Se a avaliação final ocorre no sexto dia, logo após a criação do homem, é no sábado que se realiza a festa da criação!
É, pois, o sábado que abençoa, santifica e revela o mundo como criação de Deus. Curiosamente, na tradição teológica das igrejas do Ocidente, a criação, via de regra, é apresentada como “obra de seis dias”. O sétimo dia, o sábado, muitas vezes foi ignorado. Por isso, quase que continuadamente Deus era apresentado somente como o Deus criador. Deus não se entrega ao ócio. O Deus que descansa, o Deus que festeja, o Deus que se alegra com a sua criação passou para o segundo plano. Mas, mesmo assim, somente o sábado é a plenitude e a coroa da criação (MOLTMANN, 1992, p.23).
É exatamente porque, a raça humana recebeu este Mandato, que, há esperança para a melhoria de vida de qualquer sociedade, através de mudanças culturais. Mesmo com a entrada do pecado no universo, ainda que, todas as culturas tenham sido atingidas com marcas diabólicas, há também, marcas divinas em todas elas, dando possibilidade para aquilo que Robinson Cavalcanti chamou de: A redenção da cultura:
A leitura de Gênesis 1.28 nos leva a perceber que o mandato cultural inclui: 1) sexualidade, família, organização social - “Sede fecundos”; 2) uso dos recursos naturais, relação com o meio ambiente, economia - “enchei a terra”; 3) conhecimento, experimento científico, tecnologia - “sujeitai-a”; 4) Governo, legislação, justiça social - “dominai” (CAVALCANTI, 2000, p.46).
No que concerne sobre as duas fontes que nos relatam sobre a criação, chama-se de código sacerdotal, a que se encontra em Gênesis 1:1-2; 4a; e de narrativa javista, a de Gênesis 2:4b-25.
As duas representações, embora por caminhos diversos, chegam à criação do homem, isto é, do ser humano, homem e mulher. O mundo inteiro se submete ao homem, considerado o ponto culminante de toda a criação, pois, Gn 2, atinge, também, o apogeu na criação da humanidade, representada pela dualidade do casal. O homem é o centro em torno do qual Deus distribui suas ações (VON RAD, 1973, ps.148-149).
É importante e crucial observar, nas várias maneiras de se entender as narrativas bíblicas da criação, a diferença fundamental no propósito da criação, em Gênesis, com alguns textos mesopotâmicos. Para estes, os homens são criados à imagem dos deuses, mas, a finalidade desta semelhança é de dar aos seres humanos, condições de realizar as tarefas dos deuses, para que estes possam se tornar seres de tempo livre, enquanto que, na tradição javista, revela-se como Deus confiou ao homem a tarefa de trabalhar, de continuar sua obra, mantendo-se presente e, mais do que isto, disposto a estabelecer comunhão profunda, através das conversar que aconteciam no jardim. O Deus que cria é o mesmo que quer ter intimidade com sua criatura e o Seu maior prazer é revelar-se, cada dia mais, com a obra prima da Sua criação.
Não há dúvida de que, a narrativa sacerdotal da criação quer transmitir, não apenas conhecimentos teológicos, ma também, conhecimentos naturais. O que há de especial e difícil de perceber é que a teologia e a ciência natural aí se encontram tão intimamente entrosadas, que não há quase tensão entre elas (VON RAD, 1973, p.155).
A confiança que o criador demonstra na raça humana, se expressa, de maneira muito clara, ao repassar tudo o que havia criado para às mãos da criatura que houvera feito com tanto e maior cuidado, beleza, carinho e mistério, se compararmos o ato da criação com os atos da fecundação e gestação, descritos por Davi, no Salmo 139:14, o modo assombrosamente maravilhoso como fomos formados!
São dois os aspectos do trabalho confiado ao homem: o trabalho material (’abad) e um esforço por cuidar das coisas criadas (shamar). A criação é confiada ao homem como um dom, com o empenho de cultivá-la e protegê-la (CIMOSA, 1987, p.100).
As discussões longas e já de bastante tempo, em relação aos textos do relato da criação, não se esgotaram e nem se esgotarão tão facilmente, pois, para muitos, os relatos não dão nenhuma base científica para se provar, se de fato, foi daquela maneira que tudo aconteceu. Entretanto, um cientista cristão assim se expressa:
A necessidade existencial de ter uma percepção da origem do universo não se prende aos aspectos científicos da questão, mas, está visceralmente ligada a estes últimos aspectos éticos e morais. Portanto, trata-se de um problema religioso e não científico. As Escrituras falam-nos a respeito de Deus e da alma do homem, de modo que devemos ler e interpretar estes vinte e cinco versículos de Gênesis como uma declaração acerca dos questionamentos existenciais do ser humano, e jamais como um tratado científico. Assim, se pretendemos explicar o primeiro capítulo de Gênesis à luz do que nos diz a Ciência, e se a nossa grande preocupação for obter uma concordância básica com o texto sagrado, então deveremos antes de tudo, decidir com qual Ciência queremos obter esse acordo, pois, como nos diz o Dr. Ernest Lucas, “se a nossa interpretação da Bíblia concorda, plenamente, com a Ciência moderna de hoje, é quase certo que não vai concordar com a Ciência moderna de amanhã”. Por esta razão, tenho a convicção de que o texto de Gênesis 1 não foi escrito para ser compreendido à luz do que a Ciência tenha para nos dizer, seja qual for o estágio da Ciência a que nos referimos. A sua mensagem não depende de um conhecimento científico específico, nem o efeito que ela deve gerar em nosso espírito sofre qualquer influência do que a Ciência possa saber ou deixar de saber, a respeito da criação do universo e da Terra. O que eu tenho aprendido é que o texto fala por si mesmo, sempre que sabemos ouvi-lo. O que ele nos diz está situado numa outra esfera do conhecimento, de modo que ele convive, perfeitamente, com o que a Ciência informa, seja ela que Ciência for: a de hoje, a de ontem ou a do futuro. A primeira coisa que podemos aprender é que a Natureza não é o resultado de processos aleatórios que operam ao acaso, mas, que ela existe por causa de uma decisão de Deus. É o pensar de Deus que traz à existência as sucessivas etapas da Criação. É importante observar que, ciente do seu espaço, em momento algum o texto bíblico atreve-se a invadir os domínios da Ciência, e põe-se a explicar os mecanismos e os fatos bioquímicos e biológicos que foram empregados para que esse suporte material da vida, viesse a concretizar-se. No entanto, esquecendo os limites do seu espaço, muitos cientistas querem convencer-nos de que a vida surgiu por obra e graça do acaso. Flagrante invasão de domicílio alheio! (OLIVEIRA, 1994, p.25, 27, 30 e 31).
Se fossemos enumerar o pensar de Deus, poderíamos faze-lo da seguinte maneira: 1- A Natureza é intencional, é uma obra deliberada. 2- A Natureza é a expressão da vontade de Deus. 3- A Natureza é revestida de racionalidade, já que é resultado do pensar de Deus. 4- A Terra é um sistema destinado a fornecer o suporte imediato da vida - tudo nela foi preparado, para dar condições à existência humana. 5- A vida tal como se apresenta nos seres humanos, representa o ponto de mais alta complexidade, em todo o processo da criação.
Oliveira, nos ajuda a aprofundar nossa reflexão:
Uma correta visão do mundo, com base religiosa, é uma concepção do homem como ser dotado de faculdades racionais e de autoconsciência, que o diferem do restante da Natureza, e lhe conferem atributos e problemas que os outros seres vivos não têm. No âmbito da narrativa da Criação, vamos encontrar três textos em que esta concepção do Homem é apresentada e detalhada, com uma amplitude como não se encontrará em nenhuma outra parte das Escrituras. A narrativa é rica em detalhes e em conteúdos; a primeira idéia que o texto passa é a certeza de que o homem é o final de uma longa cadeia criativa: do inanimado para a vida, da vida vegetal para a vida animal, e desta para o homem. Deus encontrou o ponto terminal de sua atividade criativa: com o homem o mundo está completo. O homem é um ser que se define através de uma equação única: “argila do solo” + “hálito de vida” = homem (”ser vivente”). Desta forma bela e simples, o texto sagrado exprime a dicotomia básica do ser humano, a sua eterna divisão entre o material (o imediato, o visível, o físico, o biológico) e o espiritual (o transcendente, o eterno, o divino). O homem é um ser vivente, exatamente porque, é capaz de compartilhar essas duas esferas da realidade, e ele jamais poderá ser completamente feliz e realizado se abandonar qualquer uma dessas esferas a que está vinculado. Devemos lembrar que, depois do homem nada se cria. Depois do homem vem o repouso de Deus (OLIVEIRA, 1994, p.39-41)!
A própria concepção de uma antropologia teológica, deriva-se não só pelo fato, da raça humana ter sido criada por Deus, mas, também, de ter sido feita Sua parceira.
A ação criadora de Deus, chega ao seu clímax, com a criação do homem, “imagem de Deus”. Basta assinalar que, o encargo conferido ao homem (representar o criador enquanto à sua imagem; exercer em seu nome um domínio senhorial e tarefas de governo sobre o resto da realidade criada) outorga à doutrina criacionista bíblica, um caráter de novidade revolucionária; o mundo saído das mãos de Deus não é uma magnitude fechada e concluída; agora, passa às mãos do homem para que ele o aperfeiçoe e dirija até o fim. Gn 1, resume, prodigiosamente, o discurso sobre o todo e o discurso sobre as partes, a expansão temporal de tudo (do primeiro ao sétimo dia, (do próton ao éschaton), e sua expansão espacial (do céu à terra e aos abismos marinhos). Nenhuma outra cosmogonia é tão globalizante quanto essa. Fora deste grandioso afresco, só nos resta a totalidade em fragmentos. E, mais do que nunca, hoje, quando a especialização crescente das ciências naturais pode oferecer apenas retalhos de um mundo fragmentado, e quando a tarefa de recompor a unidade é chamada de missão impossível, em certos círculos acadêmicos. O falar englobante acerca do todo, confirmar-se-á, vigorosamente, na cristologia cósmica do Novo Testamento (LA PEÑA, 1986, p.35 e 37).
Desafiadoras, são as palavras de Freire-Maia, doutor em Ciências Naturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao comentar nossa participação no projeto de Deus:
Nós estamos presentes no ato da criação. Ela está acontecendo agora. Nós a vemos assim como vemos os desígnios de Deus. Não somos, apenas, um de seus frutos, mas, também, seus contemporâneos, orando para que esta magnífica obra da criação, em evolução, prossiga através dos tempos, em direção à plenitude do Reino (FREIRE-MAIA, 1986, p.29).
Além dos textos clássicos sobre a criação, há um outro, mencionado no Salmo 8, que mereceu a seguinte reflexão de Glasser:
O Salmo 8 acentua a relevância do Mandato Cultural. Uma questão é levantada: “O que é o homem para que dele te lembres e o filho do homem para que o visites?” Em resposta, chama-nos a atenção para a majestade e dignidade de cada ser humano: “Tu o fizestes um pouco menor que Deus e o coroaste de honra e de glória. Tu deste para ele o domínio sobre o trabalho de suas mãos; tu colocaste todas as coisas sob seus pés, ovelhas e bois e as bestas feras do campo, os pássaros no ar, os peixes no mar e qualquer coisa que passe pelos oceanos.” A totalidade da existência humana e o mundo físico, ocorrem dentro de uma consideração do mandato cultural. Mas, não completamente. Podemos constatar que a Bíblia, repetidamente, fala contra o pecado em termos de injustiça, opressão e exploração. Por essa razão, é significante que o Mandato Cultural, que ordena que pessoas exerçam domínio sobre a terra, sejam sobre coisas inanimadas, exclua os seres humanos (GLASSER, ainda não editado, pg.48).
3. Características
No estabelecimento deste Mandato Cultural, temos pelo menos, três características principais:
3.1. Características Gerais
Podemos compreender que, quando Deus estabelece que a natureza estaria à disposição do ser humano, para servi-Lo, todas as vezes que isso acontece, esta mesma natureza está glorificando a Deus, pois, está realizando o seu propósito e cumprindo o desejo divino. Também, a raça humana, quando desempenha sua função, está realizando o seu propósito e cumprindo o desejo divino. E assim, ambos, natureza e ser humano, glorificam a Deus, que é o fim principal não só da raça humana, mas, de tudo o que Deus criou. Por isso, o gênero humano precisa ser sábio na administração do bens que Deus lhe dá, para não abusar dela. Antonio Carlos Barro, citando Brigitte Kahl, diz:
Se Adão é o mestre sobre a criação, ele é, também, e ao mesmo tempo, ligado à terra, como o seu servo (BARRO, citando artigo de B.K, entitulado: Humam Culture and the Integrity of Creation, 1987, p.130).
3.1.1. Desenvolvimento, Fecundidade e Procriação - na maioria das vezes, o imperativo: crescei, tem sido interpretado, ligando-o ao multiplicai-vos. Entretanto, pode-se analisá-los separadamente, dando ao primeiro, a noção de desenvolvimento, isto é, um desejo muito grande de Deus, para que, em todas as áreas da vida e em todos os relacionamentos, houvesse um crescimento. Este crescimento, deveria produzir um relacionamento tão profundo entre o macho e a fêmea, que, pudessem se relacionar sexualmente. Como conseqüência, surgem a fecundidade e a procriação. Assim como Deus havia feito, toda a natureza, com capacidade de gerar outros seres, fossem eles vegetais ou animais, caso contrário, a criação não se renovaria e necessitaria, sempre, de uma intervenção divina, também, à raça humana, foi dado este poder. Assim, não com a mesma intensidade e perspectiva, o ser humano, também, passa a ser um criador, ao gerar seus filhos. O crescei e multiplicai-vos, é um dos componentes fundamentais para a própria continuidade do mandato;
3.1.2. Domínio sobre a Terra, Mar e Ar - tudo o que a raça humana necessitar, ela o encontrará numa dessas três fontes. O conhecimento científico, que muito tem se multiplicado nos últimos anos, é uma grande demonstração de obediência, para com o mandato cultural. Cada nova descoberta, abre novas perspectivas para a sociedade;
3.1.3. Domínio sobre os Animais - não haveria como tornar a terra produtiva, só com o trabalho humano. Assim, ao se aperceber disso, ao longo do tempo, o ser humano, vem usando a sua capacidade de domar os animais, tornando-os parceiros na mesma parceria, dada por Deus;
3.1.4. Domínio Gastronômico - aí está um item, nem sempre tratado como “espiritual”, em nossos compêndios. Aprender a lidar e a aproveitar toda a criação de Deus, transformando-a em fonte de alimento, que não só produza sustento físico, mas, também, emocional e lúdico, é uma das maneiras mais interessantes e criativas, dentro da ordem divina. Faz-se necessário relembrar que, boa parte das alianças que Deus estabelece com o Seu povo, Ele o faz, usando a gastronomia, como sinal.
Estes domínios acima mencionados, caracterizam todo o trabalho produtivo do ser humano. Além disso, não é demais ressaltar que, todo o trabalho que o homem recebeu para fazer, foi antes da queda, portanto, em nenhum momento podemos concordar e propagar que o trabalho foi uma maldição para a raça, como conseqüência da queda. Ao contrário, trabalho é bênção, é saúde, é produtividade, é realização e é subsistência.
O recente documento de João Paulo II sobre o trabalho humano (Laborem Exercens), repetindo que “a Igreja tem a convicção de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra”, demonstra que a fonte desta sua convicção são as primeiras páginas do Gênesis (CIMOSA, 1987, p.99).
O único domínio que não se menciona, porque, não deveria nunca ser utilizado, é do ser humano sobre o próprio ser humano. A relação proposta por Deus era de parceria e não de exploração. Entretanto, o pecado gerou tal domínio, fazendo com que os outros, sejam usados com a finalidade de dependência e sujeição, entre os povos, como hoje se vê, mesmo com os pressupostos da globalização.
Humanos não tem o direito de subjugar outros seres humanos. Somente Deus é seu legítimo senhor. Quando os seres humanos se recusam a viver no mundo de Deus, de acordo com Sua vontade, ele faz de si mesmo, através desse ato, um falso deus, com o direito de dominar e manipular outros seres humanos, sendo deles, senhor. Na realidade, as pessoas perdem sua humanidade quando se arrogam a si mesmas o papel que é de Deus. O ateísmo marxista não era mais ofensivo que a reivindicação de Marx: “O humano é o mais alto ser para o ser humano”. Tal dogma, encorajou os marxistas a crerem em sua autonomia. Eles se sentiram livres para agir sem a restrição que vem da submissão a Deus. Inevitavelmente, o sofrimento que eles causam, tem sido incalculável (GLASSER, ainda não editado, pg. 48).
Com uma contribuição muito significativa, que nos ajuda a aprofundar nossa capacidade de reconhecer nossa relação com o próprio conhecimento sobre tudo e sobre todas as coisas, o grande teólogo Moltmann, enumera algumas outras características gerais:
Um modo de pensar integrativo e integral avança neste sentido social em direção ao objetivo de um resumo multifacetário e, finalmente, universal. Com isso, sem dúvida, muda-se o interesse motor do (re) conhecimento: A gente não quer mais (re)conhecer para dominar, não quer mais analisar e reduzir para reconstruir, mas a gente quer (re)conhecer para participar e para ingressar nas relações recíprocas daquilo que vive. Um pensar integrativo e integral está a serviço de uma comunitarização entre pessoa e natureza, que promove vida. Sob “natureza” é entendido, aqui, tanto o meio-ambiente natural quanto a própria corporalidade. No momento em que for construída uma rede de reciprocidades, surgirá uma vida simbiótica. É necessário definir essa vida de forma diferente em vários níveis:
No nível jurídico e político, ela precisa ser encarada como uma “aliança com a natureza”, na defesa e equilíbrio dos direitos das pessoas e dos direitos da terra. A natureza não pode continuar sendo entendida como um “bem sem dono”.
No nível medicinal, a vida simbiótica deve ser definida como uma “totalidade psicossomática” da pessoa que de defronta consigo mesma. O corpo não pode continuar sendo visto como um “corpo”, que uma pessoa “tem”.
No nível religioso, ela tem de ser entendida como “comunhão de criação”. Criação não é de modo algum o mundo, que a pessoa humana deve “subordinar” a si. Um pensamento integrativo e integral está orientado pelo intuito de introduzir essa comunhão para dentro dessa aliança, dessa totalidade e de, após ter sido menosprezada, trazê-la novamente à consciência e aprofundá-la mais, de recuperá-la depois de ter experimentado destruições (MOLTMANN, 1992, p.20).
3.2. Características Específicas
3.2.1. Cultivar o Jardim - a idéia principal, extraída do verbo aqui usado, é a de torná-lo produtivo. Se Deus havia criado frutos que produziam suas sementes, cabia ao ser humano, desenvolver métodos e maneiras de multiplicar aqueles primeiros frutos, ao longo de toda a extensão do jardim;
3.2.2. Guardar o Jardim - neste caso, a idéia do verbo é: proteger o equilíbrio, derivando-se daí, toda responsabilidade ecológica, tão necessária em nossos dias. Alguns aspectos mais abrangentes sobre este assunto, serão tratados em outro momento. Entretanto, citamos aqui, as palavras de Stott:
O trabalho não só tem como propósito a realização pessoal do trabalhador, senão também, o benefício da comunidade. Se pode supor que Adão não cultivava o Jardim do Éden, meramente para seu deleite, senão, para alimentar e vestir sua família. Ao longo da Bíblia, a produtividade do solo se vincula com as necessidades da sociedade. A consciência de que nosso trabalho é útil e valorizado, contribuí para aumentar a satisfação laboral (STOTT, 1991, p.185).
3.2.3. Obedecer no Jardim - nota-se aqui, a consciência moral e ética da humanidade para com Deus. O aviso solene fora dado: Se pecares, morrerás (Gn 2:17)! O ser racional, capacitado por Deus deste a criação, tinha todas as condições de não pecar. As milhares de árvores à sua disposição, davam-lhe todas as possibilidades de vencer a tentação e de obedecer ao Criador.
3.3. Características Familiares e Sociais
3.3.1. Interdependência na Criação da Mulher - um outro detalhe surge do texto da narrativa da criação, pois, assim como na formação do macho, Deus usa matéria prima já existente, a terra, no caso da formação da fêmea, também, Ele usa da mesma metodologia, formando-a de uma matéria prima já existente. Não propriamente do barro, mas, tirando-a do próprio macho, que, por sua vez, fora tirado da terra. Uma vez mais, a lição de parceria se manifesta, pois, tanto o homem como a mulher, vão precisar um do outro para viver e obedecer o desejo de Deus. O odontólogo Newton Carrijo, membro da 1ª IPI de Assis, SP, já falecido, numa palestra sobre este texto, fez o seguinte comentário:
Deus realizou a primeira cirurgia, o primeiro transplante, a primeira sutura e a primeira cirurgia plástica (CARRIJO, 1984, IPI de Martinópolis, SP).
O Apóstolo Paulo, influenciado pela cultura da sua época, destaca um papel preponderante para o homem em relação à mulher, porém, reconhece esta relação de interdependência, destacando que: No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus (I Cor 11.11-12).
3.3.2. Declarações Afetivas - algo tão fundamental para o bom viver da família e da sociedade, é o uso de palavras adequadas e elogiosas. Pode-se dizer que temos aí, a primeira declaração de amor de um homem para com uma mulher, mesmo que não pareça tão bela e que não seja tão poética, para os nossos dias, mas, no contexto, depois de observar entre os animais e não achar alguém que lhe preenchesse o vazio, Adão diz: Esta afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! (Gn 2:23);
Leonardo Boff, destacado escritor brasileiro dos nossos dias, demonstra a importância deste aspecto:
Entramos na fase em que a vida sofre sua maior ameaça e, ao mesmo tempo, em que os indicadores apontam para um patamar mais alto de realização da vida: a emergência da noosfera e de uma única sociedade mundial. Por nooesfera, expressão criada por Teilhard de Chardin, entende-se a nova esfera humana, caracterizada pelo espírito de comunhão e de amorização entre os humanos e deles para com a terra. Trata-se de um processo em curso, cheio de contradições, recuos e desvios, mas que, apesar disso, mostra uma força de realização irreprimível (BOFF, 1999, p.117-118).
Na concepção de Mesters, a formação dos dois sexos expressam a grandeza do criador, quando afirma:
De maneira simples e popular, o autor faz saber que se deve ter respeito pela misteriosa atração dos sexos e pela unidade do matrimônio, no qual o homem e a mulher se completam mutuamente. Aquilo tem a ver com Deus. O sono profundo que Deus fez cair sobre Adão não sugere a anestesia para tornar a operação menos dolorosa. Eles pouco entendiam de cirurgia. Aquilo tem a ver com a concepção que tinham da ação criadora. Criar é o segredo de Deus. Só Deus o conhece e só Ele sabe fazê-lo (cf. Sl 138:q13-14). O homem não pode presenciá-lo. Por isso, dorme quando Deus cria (MESTERS, 1999, p.78).
Com colocações teológicas precisas, mas, ao mesmo tempo, com uma moldura poética, Bavink assim definiu esta interdependência:
Adão continuou sendo a fonte e cabeça da raça humana. A mulher não foi meramente criada ao lado de Adão, mas, foi criada a partir do homem (1Co 11.8). Assim, como o material utilizado para a criação de Adão foi tirado da terra, da mesma forma a costela de Adão foi a base para a vida de Eva. Assim, como do pó da terra o primeiro homem tornou-se um ser vivo ao receber de Deus o fôlego da vida, da mesma forma, da costela de Adão, a primeira mulher tornou-se um ser vivo pela onipotência criativa de Deus. Eva foi feita a partir de Adão e tornou-se um ser vivo independente de Adão. Ela relacionava-se com ele e ao mesmo tempo era diferente dele. Ela pertence à mesma espécie, mas, dentro dessa espécie, ela ocupa o seu próprio lugar. Ela é dependente e ao mesmo tempo é livre. Ela veio depois de Adão e foi feita a partir de Adão, mas deve sua existência exclusivamente a Deus. E dessa forma, ela ajuda o homem a cumprir sua vocação de sujeitar a terra. Ela é uma ajudadora, não uma amante ou muito menos uma escrava, mas, um ser livre, independente e individual, que recebeu sua existência não do homem, mas, de Deus, que deve prestar contas a Deus e que foi concedida ao homem como uma dádiva gratuita e imerecida (BAVINK, 2001, p.205).
3.3.3. Manifestações Íntimas - o texto nos informa sobre sexualidade, assunto que, também, será estudado em outro momento. Mas, aqui, cabe ressaltar a intimidade sexual, entre ambos, pois, estavam nus e não se envergonhavam;
Stam faz a seguinte afirmação:
O ser humano, em sua corporalidade física e sua sexualidade, é a representação visível de Deus, na terra (STAM, 1995, p.23).
3.3.4. Unidade na Diversidade - mesmo sendo diferentes, no que tange ao gênero sexual, macho e fêmea, esta diversidade, quando unida, não só sexualmente falando, mas, através da aliança do casamento, produz um dos maiores símbolos de unidade - uma só carne (Gn 2:24)!
A análise feita por Kidner, nos ajuda a entender, não apenas, a unidade da raça na criação, mas, também, como esta unidade vai ser e é fundamental para a aplicação e resgate do mandato cultural:
As palavras homem e mulher, macho e fêmea, nesta conjuntura, têm implicações muito amplas, como Jesus demonstrou ao ajuntá-las com 2:24, para fazer dos dois pronunciamentos as colunas gêmeas do matrimônio (Mc 10:6,7). Definir a humanidade como bissexual é fazer cada parte um complemento da outra, e antecipar a doutrina neotestamentária da igualdade espiritual dos sexos (”todos vós sois um”, Gl 3:28) (KIDNER, 1997, p.49).
Novamente citamos novamente Carriker:
Confirmamos que, o objeto do domínio dado à humanidade é o mundo inteiro. Tanto os céus quanto a terra, mais de uma vez, são mencionados na passagem. Sua tarefa, será dominar e sujeitar o mundo que Deus criou. Assim, ele recebe uma certa realeza delegada por Deus. Esta capacidade, aparentemente (segundo a passagem), define a imagem de Deus no ser humano, a capacidade (e ordem) de dominar, sujeitar e ordenar. Assim, como Deus domina, governa e reina como Rei, o homem, sendo seu embaixador e enviado, também, deve reinar como um rei, sobre a criação de Deus. Foi com o fim de promover o reino de Deus, que ao homem se imputou a imagem de Deus. É por isso mesmo que, depois da queda, houve tanta desordem e abuso de domínio do ser humano afastado de Deus. Somente uma restauração, uma recriação e um renascimento dos homens e das mulheres, por meio da redenção conseguida na cruz do Calvário, podem recapacitar o homem à participar do reino de Deus e à anunciar, à todas as nações, a chegada deste glorioso reino (CARRIKER, 1992, p.15).
4. ECOLOGIA
As forças da natureza foram e sempre serão gigantescas, quando comparadas às nossas pequenas capacidades e habilidades, de modo que o contínuo progresso e domínio sobre essas forças, mesmo que se apresente aos nossos olhos como espetacular, jamais deixará de ser apenas um leve arranhão na superfície quase infinita dos problemas que ainda temos para desvendar. A natureza que recebemos de Deus é maravilhosa e imensa demais, complexa e fascinante como o próprio caráter de Deus, sempre infinita quando comparada à nossa humanidade perecível e transitória (OLIVEIRA, 1994, p.11).
Há, pelo menos, duas maneiras de estabelecermos as bases para a percepção da criação: através das Ciências Naturais e da Religião. Não que um negue o outro ou o descarte, mas, uma abordagem partindo da Religião, poderá, com muito mais facilidade, abarcar o conhecimento científico. A situação inversa, nem sempre, fará o mesmo. É preciso afirmar que, o texto de Gênesis 1, não foi escrito para ser compreendido á luz do que a ciência tenha para nos dizer, seja qual for o seu estágio (OLIVEIRA, 1994, p.27).
A formação do universo, brota de uma intenção de Deus, de eliminar o caos, transformando-o em cosmos. Não foi um processo aleatório, mas, exigiu uma definição de Deus. Por sete vezes, aparece a expressão: E disse Deus! É o pensar de Deus que traz à existência as sucessivas etapas da criação. A natureza é uma obra intencional, é a expressão da vontade de Deus, ela é revestida de racionalidade, já que é o resultado do pensar de Deus e é um sistema destinado a fornecer o suporte imediato da vida.
A compreensão de que toda a criação foi originada em Deus, produziu belos hinos:
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos (Sl 19:1).
Ergo os olhos para os montes, de onde me virá o socorro? O meu socorro vem de Iahweh, que fez o céu e a terra (Sl 121:1).
Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas (Rm 1:20).
Essa visão, conforme Boff, exige uma nova civilização e um novo tipo de religião, capaz de religar Deus e mundo, mundo e ser humano, ser humano e espiritualidade do cosmos (BOFF, 1999, p.10).
Ao olharmos com uma visão holística para o assunto da ecologia, precisaremos entender a ecologia integral, pois, o ar que respiramos não conhece fronteiras geográficas e menos ainda, ideológicas.
Podemos alistar as seguintes preocupações ecológicas: ambiental, social, mental e integral, (BOFF, 1999, p.26-31), ao que o autor, com muita felicidade, chama de: Ética da Vida!
Nesta grande interação, nasce um Sistema Aberto, defendido por Moltmann, ao comparar propostas anteriores:
Nossa palavra criação, se refere ao processo criador e a seu resultado. Por isso, quando falamos de criação, no sentido teológico pensamos, não sem razão, em um estado originário do mundo e no começo de todas as coisas, concebendo-o como uma situação que se fechou de uma vez para sempre, que estava terminada e era perfeita. Para muitos, a história não começa até que o homem caia e não termina até que a criação se restabeleça na redenção. Segundo a exegese moderna do Antigo Testamento, esta concepção da criação é insustentável. Na perspectiva bíblica, a fé histórica na salvação, determina a fé na criação e, assim como a redenção determina a fé histórica na salvação, também, a escatologia determina a experiência da história da fé, na criação. A criação se inicia com: no princípio criou Deus os céus e a terra, e historicamente, terá seu fim na consumação dos tempos, exatamente no fim, por isso, ela se mantém como um sistema aberto ao futuro. Assim, a teologia tem que falar da criação não só no começo, mas, também, na história e ao final, isto é, olhando o processo total de criar, de Deus. Compreende o criar inicial, o criar histórico e o criar escatológico. A criação original aponta a história da salvação e ambas apontam para cima de si mesmas: ao reino da glória (MOLTMANN, 1979, p.147-150).
A importância de olharmos para este Sistema Aberto, em relação à ecologia, permite-nos encarar as demandas do nosso tempo, com a responsabilidade de mordomos de Deus, conforme estabelecida no Mandato Cultural. A falta desta compreensão, tem nos levado à omissão e despreocupação com a própria vida.
Encontramos sistemas abertos, cuja organização interna permite galgar patamares mais altos de complexidade. Isto significa: cada sistema se encontra num jogo de interação, numa dança de troca de matéria e de energia, num diálogo permanente com o seu meio, do qual recebe, acumula e troca informações. As características dessa dinâmica são: auto-organização, adaptabilidade, reprodução e autotranscendência, como um sistema aberto a novas sínteses, a novos patamares de evolução e a novas formas de expressão (BOFF, 1999, p.113-114).
A própria compreensão do ser de Deus, na sua dinamicidade, vai-nos permitindo ampliar nossa posição em relação ao universo por Ele criado. Quando não se desenvolve a perspectiva trinitária do Ser de Deus, deixamos de enxergar uma série de oportunidades, nas, quais, poderíamos desenvolver a missão da Igreja.
Na salvação propriamente dita do ser humano, a economia da trindade se estabelece de maneira muito clara: o Pai planeja a salvação; o Filho executa o plano de salvação e o Espírito Santo aplica a salvação, no coração da pessoa.
Esta mesma economia se manifesta em relação à toda a natureza e a todo universo, criado pelas mesmas mãos que criaram a raça humana. Tudo o que o Pai criou, o fez em Cristo e tudo está sendo mantido pela ação do Espírito Santo.
Num transbordamento livre do seu amor, o Deus eterno sai de si mesmo e produz uma criação, uma realidade que existe assim como ele existe, mas, que é diferente dele. Através do Filho, Deus cria, reconcilia e salva a sua criação. Pela força do seu Espírito, Deus está na sua criação; ele mesmo está presente na reconciliação e na redenção da sua criação. No transbordamento do seu amor, do qual tudo provém o que vem de Deus, reside também já a disposição de Deus suportar as contradições das suas criaturas. Nele, também, já reside a vontade para a reconciliação e para a redenção do mundo, através da paciência sofredora de sua esperança (MOLTMANN, 1983, p.35).
Esta harmoniosa colaboração entre as pessoas da Trindade, nos é revelada na beleza poética e riqueza teológica do Salmo 104, cujo conteúdo revela a grande ação ecológica:
Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como tu és magnificente! Sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina, pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro, e voas nas asas do vento. Fazes a teus anjos ventos, e a teus ministros, labaredas de fogo. Lançastes os fundamentos da terra, para que não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão fugiram, à voz do teu trovão bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havia preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra. Tu fazes rebentar fontes no vale, cujas águas correm entre os montes; dão de beber a todos os animais do campo; os jumentos selvagens matam a sua sede. Junto delas têm as aves do céu o seu pouso e, por entre a ramagem, desferem o seu canto. Do alto de tua morada regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão; o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite que lhe dá brilho ao rosto, e o pão que lhe sustém as forças. Avigoram-se as árvores do Senhor, e os cedros do Líbano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto à cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes são das cabras montesinhas, e as rochas o refúgio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo: o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa, e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até à tarde. Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. Por ele transitam os navios, e o monstro marinho que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem, e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra. (Grifo nosso). A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por suas obras! Com só olhar para a terra ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam. Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no Senhor. Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistem os perversos. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia!
Essa relação de comunhão entre a Trindade e a obra criada, se projeta no Mandato Cultural, visto que, a raça humana, colocada para administrá-la, deverá faze-lo nessa mesma perspectiva de comunhão.
O Espírito Santo não só aplica a obra da salvação no ser humano, mas, também, sustenta as leis naturais, estabelecidas desde a criação, especialmente, a produtividade dos animais e de toda a terra. Assim como Ele mantém comunhão com a Igreja, sendo o Parácleto, também o é para toda a criação.
Pois, é o Espírito Santo que por tudo sustém, vastamente, todas as coisas, as anima e vivifica (CALVINO, 1967, p.23, Inst. I. 13,14).
Se o Espírito Santo foi derramado sobre toda a criação, então, ele transforma a comunhão de todas as criaturas com Deus e entre si naquela comunhão da criação, na qual todas as criaturas, cada qual do seu modo, se comunicam com Deus. A existência, a vida e a tessitura das inter-relações estão firmadas no Espírito: Pois, nele vivemos, e nos movemos e existimos (At 17.28) (MOLTMANN, 1983, p.29).
Jürgen Moltmann, destacado teólogo alemão do final do século XX, pai da Teologia da Esperança, em seu precioso livro: Deus na Criação - Doutrina Ecológica da Criação, anteriormente citado, nos oferece profundas pistas teológicas, para entendermos e assimilarmos a ecologia, como parte integrante da missão.
Se não mais compreendemos Deus de forma monoteísta como o sujeito único e absoluto, mas de uma forma trinitária como a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, então não mais podemos entender a sua relação para com o mundo por Ele criado como sendo uma relação unilateral de domínio, mas temos que entendê-la como uma relação variada e multiforme de comunhão. Esta é a idéia básica de uma teologia não-hierárquica, descentralizada e cooperativista. Uma doutrina da criação em perspectiva ecológica deve esforçar-se em abandonar o pensamento analítico com suas divisões sujeito-objeto e buscar aprender um modo de pensar novo, comunicativo e integrativo. Estar vivo significa existir em relacionamento com outras pessoas. Viver - é comunicação em comunhão. A gente não quer mais (re) conhecer para dominar, não quer mais analisar e reduzir para reconstruir, mas a gente quer (re) conhecer para participar e para ingressar nas relações recíprocas daquilo que vive. (MOLTMANN, 1993, p.18-20).
Ao levarmos em conta o equilíbrio que a própria natureza produz para sua sobrevivência, descobriremos esse relacionamento entre toda a criação e, quando qualquer ponto entra em desequilíbrio, há conseqüências trágicas para todos os habitantes.
O axioma: Na natureza nada se perde, tudo se transforma, reforça a idéia desse relacionamento perfeito, numa verdadeira rede de reciprocidades, o que Moltmann chamou de vida simbiótica.
É necessário definir essa vida de forma diferente em vários níveis:
No nível jurídico e político, ela precisa ser encarada como uma aliança com a natureza, na defesa e equilíbrio dos direitos das pessoas e dos direitos da terra. A natureza não pode continuar sendo entendida como um bem sem dono.
No nível medicinal, a vida simbiótica deve ser definida como uma totalidade psicossomática da pessoa que se defronta consigo mesma. O corpo não pode continuar sendo visto como um corpo, que uma pessoa tem.
No nível religioso, ela tem de ser entendida como comunhão de criação. Criação não é de modo algum o mundo, que a pessoa humana deve subordinar a si. Um pensamento integrativo e integral está orientado pelo intuito de introduzir essa comunhão para dentro dessa aliança, dessa totalidade e de, após Ter sido menosprezada, trazê-la novamente à consciência e aprofundá-la mais, de recuperá-la depois de ter experimentado destruições (MOLTMANN, 1993, p.20).
Não há como, também, não assimilarmos questões ecológicas à missão, visto que, na perspectiva apocalíptica, toda a criação está envolvida e caracterizada como novo céu e nova terra!
Só em Cristo e no Seu tempo messiânico é que podemos desenvolver uma doutrina cristã da criação. E esta teologia:
Está orientada para a libertação das pessoas, para a satisfação da natureza e para a salvação da comunhão entre a pessoa e natureza das forças do negativo e da morte (MOLTMANN, 1993, p.22).
A falta desta compreensão, tem produzido um novo caos, dentro da desordem que o próprio pecado já provocou, deste o início, gerando desequilíbrios no ecosistema e trazendo conseqüências nefastas à raça humana.
Uma das definições mais simples para ecologia é: estudo do equilíbrio dos seres vivos, porém, poder-se-ia incluir, que, também, é o estudo dos desequilíbrios entre os seres vivos.
Um dos pensadores evangélicos, que muito influenciou os primeiros passos de muitos alunos de teologia, numa compreensão do pecado ecológico que a raça tem cometido, foi Francis Schaeffer, no seu livro: Poluição e a Morte do Homem - Uma Perspectiva Cristã da Ecologia.
Logo no início ele menciona a atitude de um homem na Califórnia que ergueu uma lápide à margem do Oceano Atlântico, com os seguintes dizeres:
OS ACEANOS NASCERAM - (ele dá uma data hipotética)
OS ACEANOS MORRERAM - 1979 AD
O SENHOR DEU; O HOMEM TIROU:
MALTIDO SEJA O NOME DO HOMEM (SCHAEFFER, 1976, p.10).
A razão principal dessa falência no relacionamento entre o ser humano e a criação, vem do fato de que, a maioria dos estudos éticos é crer que só lhes cabe tratar da relação do homem com o homem. A noção de que a relação do homem com a natureza é moral, encontra pouquíssimos defensores.
Este mundo precisa ser cuidado a fim de que seus rios e ar não sejam poluídos, suas florestas e minerais não seja exauridos, nem os seres vivos não sejam destruídos, sem piedade. A responsabilidade ecológica está inserida no Mandato Cultural. Deveríamos nós, sugerir que, desde que Yahweh é um homem de guerra, todos aqueles nascidos de Sua imagem, são, de igual modo, preparados por Ele para uma guerra santa, em defesa do Seu mundo, contra os seus inimigos (GLASSER, ainda não editado, pg.48).
5. BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICO-TEOLÓGICA DO MANDATO CULTURAL
1. NA TEOLOGIA REFORMADA
Falar de Teologia Reformada, é referir-se a um grande e heterogêneo universo, visto que, não se tratou de um movimento organizado em um só lugar, em um só momento e por um só homem, mas, foi produzido por várias pessoas que, aqui e acolá, sedentas de Deus e ansiando, desgraçadamente, pela Graça, produziram algo, extremamente corajoso, para Deus.
Quando se fala da heterogeneidade, não podemos nos esquecer que, entre Lutero e os demais reformadores, como Calvino, algumas décadas os separaram e, infelizmente, algum tipo de nacionalismo entrou no meio das discussões, gerando um distanciamento entre a Reforma na Alemanha e a de Genebra. Uma das provas mais visíveis desta situação, encontra-se no famoso Monumento da Reforma, de Genebra, onde estão os bustos de dez homens, menos o de Lutero.
A validade e importância das tradições, em geral, para os nossos dias, se estabelecem na honesta relação entre o apreço e gosto pelo conhecimento histórico do pensar do povo de Deus com uma perspectiva crítica, isto é, descobrir os bons princípios e valores já vividos, sem transformá-los em regras ou formas que precisam ser repetidas. Isto seria o pecado do tradicionalismo. À esses valores, imprime-se um processo crítico de adequação e contextualização, afim de se aproveitar, ao máximo, da herança da fé que uma vez foi dada aos santos.
As tradições antigas, que foram testadas pelo tempo e que carregam consigo a sabedoria de uma raça, trazem profundidade e perspectiva para os dias em que a vida, freqüentemente, se mostra sem raízes, superficial e até mesmo banal. Contudo, as tradições somente pode garantir tal profundidade quando o seu reconhecimento for acompanhado de uma avaliação crítica. Nenhuma tradição esgota o significado da fé cristã, e cada uma delas possui uma parcela de princípios falsos, julgamentos falhos e traições às suas melhores convicções. A tradição reformada tem sido uma das formas autênticas e poderosas pela qual o povo cristão tem vivido sua fé. Ela tem muito a oferecer às pessoas do mundo atual, na medida em que tentam ser cristãos nos dias descomunais e terríveis em que vivem. Todavia, isso só será possível se for assumida por uma comunidade viva, que una apreciação com perspectiva crítica (LEITH, 1997, p.7).
Falando em tradição reformada, especificamente, faz-se necessário dizer que ela não pode ser definida com precisão, pois, seu tempo de vida, que se aproxima dos quinhentos anos, sua diferenciada geografia, nos faz vê-la, passando por mutações constantes, até porque, um dos lemas desta mesma tradição é: A Igreja, porque é reformada, sempre se reforma! (Tradução sugerida pelo Rev. Antonio de Godoy Sobrinho, na Revista Teológica Reformanda, da IPI do Brasil, nº 01, 1989).
O precioso conteúdo da fé reformada, nascida no século XVI, na Alemanha e na Suíça, firmada nas fontes primárias de Lutero, Calvino e seus conterrâneos, teve um forte impacto no estilo de vida e produção da fé, em seguida, na Escócia de John Knox e, depois deste, com a vinda dos peregrinos pietistas para a formação dos Estados Unidos da América, um dos países com profundas marcas da tradição reformada, no seu início e desenvolvimento.
Posteriormente, o repensar deste conteúdo, foi desenvolvido pelo teólogo Karl Barth, em sua Dogmática Eclesiástica, no século XX. Assim, houve um grande período em que a tradição tornou-se tradicionalismo, não por si mesma, mas, pela falta do elemento crítico e contextualizador das gerações anteriores.
Quando olhamos, especificamente, para o protestantismo brasileiro, por exemplo, que se aproxima dos seus cento e cinqüenta anos, especialmente no ramo calvinista, a falta de conhecimento das fontes primárias do pensamento de Calvino, produziu um protestantismo reformado calvinista de quinta categoria. Basta lembrar que, há pouco tempo é que a Igreja Evangélica Brasileira, teve acesso, em português, às Institutas de Calvino.
Do ponto de vista doutrinal, o calvinismo que acreditavam difundir (os missionários americanos em terras brasileiras), já era uma diluição de diluições anteriores. O presbiterianismo norte-americano já era ele mesmo uma adaptação do presbiterianismo britânico que, por sua vez, através de um século de lutas contra o catolicismo e o anglicanismo, se havia distanciado longamente do pensamento de Calvino. E como quase sempre acontece com as igrejas distantes de sua fonte de inspiração - e por isso mesmo mais ortodoxas em vontade do que em espírito - o que era importante para estes missionários era a adesão aos textos denominacionais sob a forma da tardia e duvidosa Confissão de Fé de Westminster (LEONARD, 1981, p.132).
John H. Leith, em seu precioso livro: A Tradição Reformada - Uma Maneira de Ser a Comunidade Cristã, nos aponta algumas pistas importantes, para compreensão da nossa rica herança reformada:
A tradição e o evangelho estão unidos de maneira indissolúvel. Um é indispensável ao outro e ambos são necessários à vida da comunidade cristã. O evangelho é a vontade de Deus “para nós”, seres humanos, e para nossa salvação. A tradição é a transmissão autorizada do evangelho de crente para crente, de comunidade para comunidade, de geração a geração. Portanto, a tradição tem duas utilidades. Ela pode se referir tanto ao ato da transmissão como ao conteúdo transmitido. O Novo Testamento fala da “fé que foi dada aos santos, de uma vez por todas” (Judas v.3). Esta doação é, fundamentalmente, de Deus em Jesus Cristo (cf. Romanos 8.31-32) “para partilhar de nossa existência e efetuar a nossa salvação”. Emil Brunner referiu-se muito bem a isso dizendo: Sem a tradição não existe o evangelho. A tradicionação da fé não é a transmissão de algo impessoal, mas, sempre, de uma viva e crescente realidade. Isso significa que a tradição nunca é definitiva, mas está sempre viva, aberta para seu próprio tempo e para o futuro. Por isso, temos que notar que a Bíblia é a concreção da tradição. A inspiração das Escrituras é a divina inspiração deste testemunho e interpretação dos originais. Como testemunho anterior e posterior a Jesus Cristo, a Bíblia estabelece os limites, sendo a única autoridade para toda a teologia e vida cristãs. Sua correta leitura e audição só ocorrem na tradição viva da Igreja, sob a inspiração viva do Espírito Santo, por pessoas bem vivas, isto é, que respondem com fé à sua proclamação. A grande importância que o Protestantismo sempre deu à Bíblia, ofusca o valor da tradição viva até mesmo com a relação à própria Bíblia. A tradicionação da fé não é somente um ato vivo e humano. É também obra do Espírito Santo. Albert Outler afirmou com clareza e visão: Esta “tradição” divina ou “paradosis” foi um ato de Deus na história - ato este que se renova e se torna atual ao longo do curso da história pela atuação do Espírito Santo, que Jesus transmitiu a seus discípulos quando estava na cruz (Jo 13.30). O Espírito Santo - “enviado pelo Pai em meu nome” (Jo 14.25) - recria a tradição original (traditum) através da “tradicionação (actus tradendi). Assim, a tradição de Jesus torna-se uma força atuante na vida e na fé de pessoas que dão um testemunho contemporâneo. É este “actus tradenti” que transforma o conhecimento histórico a respeito de Jesus - distante e antigo - em fé vital em Jesus Cristo - “meu Senhor e Meu Deus! Mesmo no caso de Lutero e Calvino, a função de “mestre da Igreja” consistiu em apontar para Jesus Cristo e as Escrituras. O entusiasmo por um “mestre da Igreja” não deve ser colocado no lugar da adoração a Deus que faz a Igreja ser Igreja. “É claro que permaneço na tradição reformada”, declarou Barth, “mas eu creio, como Calvino, que existe somente um Mestre na Igreja e no mundo. Consequentemente, tento ser obediente a Cristo e não a Calvino”. Jeanne d’Albret (1528-1572), a notável líder da Igreja Reformada na França, foi realmente reformada quando escreveu a seu primo, o cardeal D’Armagnac, “Eu sigo Beza, Calvino e outros, somente na medida em que eles seguem as Escrituras. (LEITH, 1997, p.15-20).
O mesmo autor, no citado livro, enumera o Ethos, ou seja, a maneira de ser da tradição reformada, extraído da sua teologia, culto, organização, cultura e vida. Alistamos os nove tópicos, sem entrar em detalhes sobre eles, por não ser o objeto deste trabalho, mas, para nos situar dentro desta rica tradição e o que ela nos oferece, em relação ao Mandato Cultural.
- A Majestade e a Glória de Deus
- A Polêmica Contra a Idolatria
- A Realização dos Propósitos Divinos na História
- Ética, Uma Vida de Santidade
- A Mente a Serviço de Deus
- A Pregação
- A Igreja Organizada e o Trabalho Pastoral
- Vida Disciplinada
- Simplicidade
Já para McKim, pastor presbiteriano nos Estados Unidos, ao apontar os cinco principais pontos da perspectiva reformada a respeito da Missão da Igreja na Sociedade, quatro dos quais, serão vistos com mais profundidade quando analisarmos a interação entre os Mandatos Cultural e Missional, destaca o quinto ponto, o qual, destacamos neste tópico, para termos uma maior abrangência de como a teologia reformada, desenvolveu, ao longo dos anos, o conceito de Mandato Cultural.
Mordomia: Administrando Responsavelmente os Recursos de Deus - Um dos mais poderosos legados do judaísmo do Antigo Testamento para a Igreja cristã, foi o conceito de mordomia. Ele é encontrado já em Gênesis 1, que fala dos seres humanos no jardim. A humanidade recebeu um grau de poder sobre os recursos deste mundo, mas também, foi lembrada de quem é, em última análise, o provedor de tais recursos. Os seres humanos estão sobre a natureza, mas, sob Deus. Os seres humanos são os mordomos, os inspetores ou administradores dos dons que lhes foram dados. As apropriações do conceito de mordomia nas igrejas reformadas tem sido, até onde lhes foi possível, abrangentes. O brasão pessoal de Calvino, resumia este compromisso abrangente. Ele mostrava um coração em chamas, numa mão aberta estendida, sendo ofertado a Deus com as palavras: “Eu te ofereço meu coração, pronta e sinceramente”. (Ao final deste tópico, inserimos o citado brasão como ilustração e porque, há muito pouco conhecimento deste símbolo no protestantismo brasileiro). Compromisso abrangente quer dizer obrigação de administrar os recursos de Deus responsavelmente e de ser bom mordomo. Finalmente, mordomia quer dizer o uso responsável dos recursos de Deus. Viver eticamente na tradição reformada exige, em parte, uma compreensão da vida humana em relação com o poderoso Outro, o qual, requer que toda atividade humana seja ordenada adequadamente em relação ao que pode ser discernido a respeito dos propósitos de Deus. A teologia não é um fim em si mesma, mas, ela serve a um propósito maior, a formação da vida humana e da sociedade em conformidade com a vontade de Deus. Assim, a Igreja deve se envolver em cada dimensão da missão na sociedade até os fins da terra, como finalidade ou propósito da Igreja. Apesar da penetração do pecado e dos fracassos da Igreja, do ponto de vista humano, Deus usa o seu povo para fazer a sua vontade, na medida em que ele obedece a Deus e reconhece a sua soberania sobre a existência como criador e Senhor (MCKIM, 1999, p. 330-333).
O pensamento reformado, pelo menos na sua teoria, se apresenta como o mais amplo, no que tange à convivência entre pensamentos diferentes. Na prática, porém, as diferentes posições se radicalizam e se tornam donas da verdade. Dentro do protestantismo, duas grandes vertentes se estabeleceram desde o final do século XIX e início do XX: conservadores e liberais. Quando se consegue viver com respeito pelas pessoas que pensam diferente entre si, a possibilidade de crescimento é muito grande. Porém, quando cada qual, se fecha e se estagna em si mesmo, os radicalismos geram feridas graves, que passam a acompanhar aquela mesma tradição.
É a Reforma que produz uma melhor e mais apropriada percepção da natureza, como campo da ação de Deus e da própria Igreja.
O panteísmo não é a resposta, mas, também, não o é qualquer tipo de cristianismo; quer o cristianismo bizantino quer um cristianismo baseado numa relação entre natureza e graça. Tampouco há resposta no conceito de natureza e liberdade defendido por J.J.Rousseau ou Kant; nem um cristianismo do tipo Kierkegardiano. Porém, certamente existe um tipo de cristianismo diferente. O cristianismo da Reforma, sim, nos dá uma resposta unificada, e esta unidade tem significado não só naquilo que se relaciona às coisas celestiais, mas, também, no relativo à natureza. Tal unidade não nos vêm de um racionalismo, um humanismo, no qual o homem está gerando algo de si mesmo, reunindo e considerando os particulares, e depois tentando extrapolar um conceito universal. A Reforma revelou fé no que diz a Bíblia, ou seja, que Deus tem revelado a verdade sobre si mesmo e o cosmos, e que, consequentemente, existe uma unidade. Este é o tipo de cristianismo que tem uma resposta, que incluí a natureza e as relações do homem com ela (SCHAEFFER, 1976, p.42).
Durante boa parte do século XX, estes radicalismos foram nítidos entre liberais e conservadores. No final do referido século, alguns movimentos de aproximação foram estabelecidos, conseguindo quebrar algumas barreiras. Outras, entretanto, continuam de pé.
Amor desordenado pelo passado, repetição de tradições como se fossem leis contemporâneas e recusa às mudanças, são claramente, maneiras destrutivas de vida. Mas, a mudança não é necessariamente boa em si mesma. O futuro não é uma porta automaticamente aberta ao progresso inevitável. A sabedoria do passado não é antiquada, porque representa a integridade da experiência humana. A tentação do espírito liberal de, por princípio, rejeitar todas as tradições, priva a Igreja de uma grande fonte de encarar o futuro. O procedimento mais correto é testar as tradições, em especial aquelas nas quais vivemos. Todas as tradições devem ser sempre revistas criticamente e aberta a uma auto-reforma. Elas precisam viver e de desenvolver não somente em termos de seus princípios internos, mas também em diálogo, e até em debate e confronto, com outras tradições, movimentos e eventos. A tradição viva e aberta da Igreja possui componentes liberais e conservadores. Um historiador de doutrina disse bem, quando afirmou que a tradição é a fé viva de um povo morto. Tradicionalismo é a fé morta de um povo vivo. A tradição reformada não pretende ser a única tradição cristã. Ela afirma, sim, ser uma forma pela qual a Igreja, una, santa, católica e apostólica, tem vivido, anunciando sua fé e vida a cada nova geração. Reivindica ser uma forma autêntica da comunidade cristã, com sua força e também suas fraquezas e problemas. Deseja ser o povo de Deus em sua plenitude. Na base de tudo isso, a tradição reformada requer aceitação e avaliação crítica (LEITH, 1997, p.31 -32).
A própria definição de Teologia Cristã, dentro da concepção reformada, nos permite observar o espaço para a existência do Mandato Cultural:
Teologia Cristã é a reflexão crítica sobre Deus, sobre a existência humana, sobre a natureza do universo e sobre a própria fé à luz da revelação de Deus, registradas nas Escrituras e, especialmente, personificada em Jesus Cristo, que é, para a comunidade cristã, a revelação final, isto é, a revelação definitiva, o critério para as outras revelações (LEITH, 1997, p.140).
Não só do Mandato Cultural, mas, também, do Mandato Missional, encontramos vários elementos que formam a conjunção ou ligação entre si, na definição acima: ambos começam em Deus, passam pela participação humana, acontecem no cenário da natureza e contam com a obra e autoridade de Cristo.
O conceito reformado estabelece Deus como Criador e o mundo como criação. O Deus que encontramos na revelação à Israel e em Cristo, é o criador do mundo e, embora Ele esteja em conflito com este mesmo mundo, por causa do pecado humano, fica patente que o mundo é de Deus e que, de fato, o conflito ocorre porque o mundo é Sua criação. Se assim não fosse, ele não teria se preocupado em estabelecer o plano de salvação.
Faz-se fundamental para aquele que deseja conhecer com maior profundidade o pensamento da Reforma, sobre vários assuntos, a leitura do importante livro: Grandes Temas da Tradição Reformada, onde encontramos um capítulo dedicado sobre a criação e a relação do próprio Deus e do ser humano com ela. Alguns poucos aspectos do artigo do professor emérito de Dogmática e de Teologia Bíblica da Universidade de Leiden, na Holanda, Hendrikus Berkhof, precisam ser mencionados:
A salvação que Deus busca não é uma libertação para fora desta existência nem uma fuga do mundo, mas a redenção deste mundo e desta existência. Salvação quer dizer purificação deste mundo e sua elevação a um nível superior, e não sua negação ou rejeição (BERKHOF, 1999, p.63).
A concepção cristã, parte da fé, nesse ato criativo e poderoso de Deus. Desde os primórdios, quando se estabeleceu o Credo Apostólico, a primeira afirmação a respeito de Deus é que Ele é Deus; a segunda que Ele é Pai e a terceira, que Ele é o criador: Creio em Deus Pai, criador do céu e da terra! Assim, o ato da criação é um ato de condescendência, isto é, que Ele se rebaixa, que Ele se limita a Si mesmo; que providencia espaço e vida para o outro - o ser humano - o qual, podia até mesmo se rebelar.
Do ponto de vista reformado,
A criação é vista como eterna e coexistente com Deus e a Palavra é o meio pelo qual Deus ocasiona e mantém o encontro revelacional. Quando se diz que Ele criou do nada, quer dizer, simplesmente, do nada. O mundo tem somente um fundamento: a vontade de Deus (BERKHOF, 1999, p.63-65).
Assim, resumidamente, vejamos algumas das principais idéias relacionadas com a missão da Igreja, onde podemos encontrar, alguma manifestação de um evangelho integral.
Dentre os muitos personagens, vamos analisar, apenas, três: Martinho Lutero, Úlrich Zuínglio e João Calvino, para tentar compreender o conceito de missão, na Teologia Reformada, em sua origem. Quanto ao período contemporâneo, vamos analisar as influências dos principais movimentos que tem atingido o pensamento reformado ou, também, denominado evangélico.
1. Martinho Lutero - um homem de vasta produção literária e também, de uma poderosa originalidade e profundidade, cuja teologia definida como: bíblica, existencial e dialética.
Por mais que acreditasse na capacidade humana de pensar e raciocinar sobre Deus, Sua Criação, Sua Obra, etc, ele admitia, honestamente, a finitude humana:
“A teologia é céu, sim, mesmo o reino dos céus; o homem, entretanto, é terra, e suas especulações são fumaça”. Quando chamamos Lutero de teólogo existencialista, queremos dizer que, para ele, o interesse por Deus era uma questão de vida ou morte, envolvendo não apenas, o intelecto de um homem, mas, sua existência como um todo. Para Lutero, a teologia era sempre intensamente pessoal, experimental e relacional (GEORGE, 1994, p.60).
Um ponto interessante a se destacar é que, com o afloramento do Sacerdócio de Todos os Cristãos, Lutero trouxe uma das principais contribuições para a Missão