Já passou da hora de acordar!
Uma reflexão desafiadora, de Valdir Steuernagel, publicado aqui no Ultimato:
Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem (Sl 24.1)
O calor nem era tanto, mas o sol parecia muito brilhante e de uma intensidade cada vez mais forte. Não era para menos, pois estávamos no Equador. Naquela altura, na metade do mundo, se está mais perto do sol e mais exposto a ele. “Aqui o efeito do aquecimento global é mais gritante e é preciso ter um cuidado especial com a pele”, explicou meu interlocutor. “Há vinte anos, a temperatura máxima em Quito era de 18O C. Hoje, a temperatura chega a 25 graus.” Sete graus de diferença em vinte anos pode não ser muito científico, mas é muita coisa!
De alguma forma, 2007 está se desenhando como o ano da tomada de consciência quanto aos efeitos nefastos do aquecimento global. Passamos a conviver com a terrível irreversibilidade desse fato. O protesto da natureza é evidente: enchentes, tornados, inundações, secas e um calor assustador parecem ter entrado em nosso cardápio diário.
No Equador, o calor parecia incomum. Lá, os jornais noticiavam enchentes na Bolívia, no Peru, na Argentina. Ao voltar, soube de enchente também no Brasil e o noticiário dizia que no Rio Grande do Sul o impacto dos raios solares estava vinte vezes acima do normal; e, em casa, começamos a falar sobre comprar um ventilador para podermos dormir melhor. Ventilador em Curitiba? Alguma coisa não está bem.
No dia 2 de fevereiro de 2007 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU publicou parte do seu relatório sobre a saúde da atmosfera, tornando oficial o que já se sentia na pele: a atmosfera está comprometida. O aquecimento da terra e o nível do oceano continuarão a subir, ainda que a emissão de dióxido de carbono (CO2) e metano, produzidos pela queima de petróleo e derivados, carvão; agricultura e destruição de florestas tropicais; seja reduzida. “Tempestades e secas serão mais freqüentes. Furacões e tufões, mais intensos”, disse a Folha de São Paulo no seu caderno Clima (03/02/07). O presidente da França expressou bem a reação a esse relatório: “Por que somos tão lentos em tomar medidas necessárias?”. E respondeu: “Em face dessa urgência, não é mais hora de meias-verdades. É hora de uma revolução.” Na teoria, nós concordamos. Mas, na prática, vamos continuar queimando nossa gasolina, desmatando nossa Amazônia e comprando mais cremes para proteger-nos de um sol que, com voz estridente, grita que só está fazendo aquilo que o forçamos a fazer.
Estamos preocupados com o meio ambiente. Será?
Todos nós somos agentes e vítimas de algo que se poderia chamar de obediência seletiva, no nosso seguimento a Jesus. Mas confesso que me é difícil entender a nossa indiferença com relação ao meio ambiente. Até parece que o Deus a quem seguimos não é o criador dos céus e da terra! Ou será que estou errado? Você ouviu recentemente algum sermão chamando a igreja à responsabilidade ambiental? Participou de algum programa que falasse da relação entre a missão da igreja e a ecologia? Por que é tão difícil para a igreja cumprir com a sua responsabilidade de cidadã?
Será porque a empresa missionária, nascida no ventre da modernidade, bebeu da água da conquista e alimentou-se na mesa da mentalidade do progresso? Assim, a natureza deveria ser conquistada e explorada com vistas ao nosso bem-estar…
Será porque a igreja foi contaminada pelo vírus do sucesso e, no processo de materialização da bênção, os cristãos só querem mais um carro na garagem?
Será porque a nossa percepção quanto aos principados e potestades é desencarnada, composta por uma visão dualista da história e carente de uma compreensão de Deus como o criador e o sustentador de todas as coisas?
É hora de arrepender-nos dessa obediência seletiva e de converter-nos ao Deus que criou os céus e a terra e nos chama a ser mordomos dele na sua criação. É hora de nos arrependermos de nossa espiritualização desencarnada e de voltarmos os olhos para a realidade da encarnação de Jesus, que nos convoca ao exercício de uma cidadania que saiba conviver com o outro e com a natureza.
Há anos aprendi com René Padilla, um dos meus mentores teológicos, que fomos criados para honrar a Deus, viver uns com os outros em harmonia e exercer uma cidadania responsável em relação à natureza. Transformemos este aprendizado em experiência de vida, tornando-nos agentes de consciência ecológica e gestores de uma prática humana saudável, na convivência com o meio ambiente e na busca da sobrevivência humana.
O engajamento das igrejas faz diferença. Isso aconteceu recentemente na Uganda, onde elas se empenharam ativamente na campanha de prevenção da contaminação com o vírus da aids e no cuidado dos aidéticos e de suas inevitáveis vítimas. O índice vem baixando e o mundo tem testemunhado isso. Precisamos:
- Gestar um estilo de vida que integre a justiça e o cuidado da natureza no nosso testemunho cristão.
- Integrar as nossas igrejas numa agenda ambiental que permita às gerações futuras ter uma qualidade de vida que lhes possibilite reconhecer a Deus como o criador de todas as coisas.
- Participar de alianças que promovam a consciência ecológica, a busca e vivências de novas alternativas energéticas e a denúncia dos grandes agentes poluidores que continuam a degradar a natureza.
É hora de acordar!
Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores… e Outras Crônicas.

