Amazônia, Nosso Jardim
Andrez Nunes
“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2,15)
A floresta Amazônica abriga 2.500 espécies de árvores (um terço da madeira tropical do planeta, é também, a principal fonte de madeira de florestas nativas do Brasil. Essa Amazônia verde faz dela um imenso jardim com suas inúmeras belezas naturais na fauna e na flora, como afirmou Eneas Salati, sabemos que: “Em poucos hectares da floresta Amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que em toda a flora e fauna da Europa”.
Mas essa grandeza natural está sob constante ameaça. Um exemplo dessa situação é o desmatamento anual da Amazônia, que cresceu 34% de 1992 a 1994. A taxa anual, que era de pouco mais de 11.000 km2 em 1991, ficou em 16.926 km2 em 1999 conforme dados oficiais. Nas últimas décadas enfrenta o desmatamento causado pela ganância das madeireiras, queimadas, criadores de gado e a conversão de terras para a agricultura como o plantio de soja, que não respeitam a floresta, rios e igarapés. Com isso sofre também o povo humilde dessas regiões, índios e populações ribeirinhas. Outra forma de destruição tem sido os alagamentos para a implantação de usinas hidrelétricas. É o caso da Usina de Balbina, ao norte de Manaus. A baixíssima relação entre a área alagada e a potência elétrica instalada tornou-se um exemplo de inviabilidade econômica e ecológica em todo o mundo. A atividade mineradora também trouxe graves conseqüências ambientais, como a erosão do solo e a contaminação dos rios com mercúrio.
Nosso imenso jardim pode se tornar um “Saara se, desde agora, não se evitar o crescente desmatamento, o uso de agrotóxicos e o plantio de transgênicos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a ação predatória de madeireiras, mineradoras e latifúndios do agronegócio já provocou a devastação de 70 milhões de hectares da floresta - mais de 22 milhões só nos últimos 10 anos” (Frei Betto).
A crise ecológica que o mundo moderno enfrenta não surgiu apenas através das tecnologias que possibilitam a exploração da natureza, ou em decorrência das ciências naturais, através das quais os seres humanos se tornam senhores da natureza. Mas baseia-se, principalmente, na ambição que os homens têm por poder e prepotência (Moltmann). Frei Betto denuncia que “pouco mais de 25 mil latifundiários dominam um território equivalente ao que é ocupado pelas populações indígenas, negra e cabocla, que somam dois milhões de pessoas!” Mas, segundo Lynn White Jr. a religião judaico-cristã também afeta o meio ambiente. Num artigo publicado na revista Science, chamado de “The Histórical Roots of Our Ecologic Crisis” [As Raízes Históricas da Nossa Crise Ecológica], ele argumenta que a crise na ecológica tem sua parcela de contribuição ao pensamento cristão. Afirma que o Cristianismo defendeu um relacionamento do homem com o meio ambiente de dominação, que Deus planejou tudo para o governo e benefício do homem, podendo explorá-la para seus próprios fins. Sendo o homem à imagem do criador, este seria então superior à criação, dando a ele o direito de subjulga-lá. Ainda, faz uma denuncia de que por quase dois milênios, missionários cristãos tem derrubado bosques considerados sagrados, por que, segundo crenças antigas, eles assumem espírito na natureza. Suas críticas têm fundamento. O cristianismo foi fortemente influenciado pelo dualismo platônico, que defendia que a natureza ou matéria era má. Daí então, a vida cristã ser de caráter voltada para a ascese e a contemplação, a teologia ocidental a partir disso manteve uma visão claramente antropocêntrica, exaltando o homem como centro do universo, como fim em si mesmo, ficando, por conseqüência, a natureza relegada a puro meio de satisfação das necessidades humanas. A máxima que Lynn White usa para essa defesa é de que “o que fazemos sobre ecologia depende de nossas idéias sobre a relação do homem com a natureza”. Da mesma forma, para Andrea Masullo, diretor de Meio Ambiente da filial italiana do Fundo Mundial para a Natureza, não há dúvidas de que “as religiões têm um papel fundamental para incorporar princípios éticos no estilo de vida e nas decisões científico-técnicas e políticas que podem levar a humanidade para o desenvolvimento sustentável”. Fé e meio ambiente é a discussão que tem permeado todos os ciclos teológicos de uns tempos para cá. O lema da vez é: O cuidado ecológico é responsabilidade de todo cristão e faz parte da nossa missão integral. Aja vista a CNBB ter lançado neste ano a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Amazônia”, e o lema: “Vida e Missão neste chão”. Antes disso o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) preocupou-se com o meio ambiente na sua reunião realizada em 1990, na cidade de Seul, Coréia, com os temas: “Justiça, Paz e Integridade da Criação”. Muitos outros esforços estão sendo realizados ao redor do mundo, veja por exemplo Al Gore, um ativista ecológico, ex vice-presidente dos Estados Unidos. Escreveu “A Terra em Balanço: Ecologia e o Espírito Humano”, em 1993; “Uma verdade inconveniente”, 2006. Em fevereiro de 2007, Al Gore e o presidente da empresa Virgin, Richard Branson, lançaram uma competição que dará R$ 50 milhões para o cientista que apresentar a melhor proposta para ‘limpar o ar’ do planeta, ou seja, diminuir as quantidades de dióxido de carbono na atmosfera. Mas não só teologos, políticos e milionários devem discutir e enganjar-se nesta missão. Como escrito acima, a questão ecológica é um problema de todos nós, o meio ambiente é a nossa casa (do grego oikos = casa, logo ecologia significa estudo ou governo da casa).
A doutrina que regulamenta a relação do homem com a natureza deve partir do pressuposto da fé na criação, segundo o testemunho bíblico. Assim, seguindo Gn 1, a relação entre as plantas e os seres vivos é regulada pela ordem da alimentação. Em Gn 9,2 é formulada a tarefa do homem de dominação sobre a os animais, de cuidar, no lugar de Deus da vida. Estar certo que o homem, como ser racional, é diferente da natureza, porque ele é feito à imagem de Deus. Mas, segundo Albert Schweitzer, isso não segnifica que o homem esteja totalmente separado da natureza, visto ser o homem criado e finito. Por isso, a relação do homem com a terra, não se esgota absolutamente na caracterização de “sujeição”, mas como espressa a terminologia bíblica, deve “cultivar e guardar”, segundo a tradição javista mais antiga (Gn 2,5 e 15).
Isso implica que a igreja assuma a tarefa de mordomo sobre a criação toda. Problemas ecológicos como a seca no nordeste, enchentes no sul, desflorestamento da Amazônia, poluição do meio-ambiente, o uso apropriado e a redistribuição de terras também devem ser tratados pelo povo de Deus. Que isto seja dever do governo não há dúvida, contudo a igreja antes, tendo uma restauração substancial da imagem de Deus nela, deve opinar e se envolver num testemunho para toda humanidade e toda a criação. Fomos criados por Deus para cuidar das coisas criadas, ou seja, do mundo, da natureza, dos rios, dos mares e do nosso jardim, Amazônia!
Andrez Nunes
Presbítero da 1ª IPI de Manaus e Aluno do 4º ano no Seminário Teológico de Fortaleza
publicado orginalmente em: http://www.ftl.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=56&Itemid=4


