Homem Ecológico*
Neste ano de 2007 muitos encontros governamentais foram promovidos pela ONU, congressos e até uma seqüência de shows foram organizados com a intenção de achar soluções para a crise climática e conscientizar sobre a relevância deste tema (Live Earth). A preocupação com a crise tem aumentado na mesma proporção com que acontecem uma seqüência constante de furacões, tornados, secas e enchentes pelo mundo. Mas não é só o governo, empresas e ONG’s que devem está preocupadas com a questão ecológica. Nos cristãos devemos ser os mais interessados com o meio ambiente – e justiça seja feita, já podemos contar com um bom número de textos e encontros em andamento para debater o assunto à luz da bíblia.
Muita coisa defendida e propagada pela ONU e órgãos responsáveis pelo debate da questão ecológica pode não ser alcançada, ou gerar resultado, se primeiro a mudança não ocorrer no homem. Mudança na sua ética, que determina seu modo de consumo, produção de riqueza e a forma de alcançá-la. Moltmann atribui a exploração predatória do meio ambiente à ganância do homem. Mudança, também, na forma que o homem se relaciona com a criação. E nossa tentativa é de teologar uma ética para a construção do homem ecológico.
A Palavra de Deus, nosso manual de fé e prática, nos dá referências para pensarmos numa teologia do homem ecológico. Podemos dá atenção a teologia reformada que ler nos primeiros textos da criação um mandato, o Mandato Cultural. Como povo de Deus, criaturas dEle, feitos à imagem e semelhança de seu criador, fomos chamados a ser co-regentes na administração da criação. Isso faz de nós mordomos dos bens de Deus, cuja terra e tudo que nela contém são propriedades de Deus (Ex 19,5; Dt 10,14). A mordomia cristã é um dos temas recorrentes nas principais igrejas cristãs. Mas temos dado ênfases a outras preocupações referentes a este papel, enquanto o cuidado da criação tem sido esquecido ao longo dos séculos. Temos feito bem nosso papel ordenado por Deus segundo registro de Gn 2,15, o do trabalho (cultivar no hebraico tem o sentido trabalhar algo, no caso aqui o solo). Já o segundo, o de guardar, preservar a terra, não temos sido muito praticado. Essas duas tarefas pertencem ao que a teologia reformada defende como Mandato Cultural. Este texto de Gênesis lança luz até sobre um tema muito discutido na atualidade, o desenvolvimento sustentável. Ou seja, o homem deve tirar seu sustento da terra, trabalhando nela, ao mesmo tempo que deve ser feito de forma responsável, preservando-a.
O desenvolvimento sustentável, segundo o relatório de Brundtland, é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as futuras gerações atenderem as suas próprias (ONU, Relatório de Brundtland – Nosso futuro comum, 1987). Esse é, sem dúvida nenhuma, um pressuposto bíblico, baseado no texto de Gn 2,15, entre outros.
Como o homem está ligado a terra, aqui vale lembrar o jogo de palavras no hebraico para entendermos a relação do homem com o meio ambiente. O homem, ´adam, vem do pó, solo, ádamah, o homem recebe seu nome da sua origem material. Fica evidente que um depende do outro, por isso a ciência chama todo o conjunto de ‘eco-sistema’. Se um deles sofre, conseqüentemente o outro sofre. Assim como uma maionese azêda deixa o homem doente, da mesma forma o mau uso dos recursos naturais trazem conseqüências trágicas ao eco-sistema. Nas Escrituras aprendemos que a terra sofre por causa da transgressão do homem (Is 24,5), e da maldade deste (Jr 12,4). O uso responsável dos recursos naturais garante ao homem ecológico a manutenção da boa criação de Deus.
O homem ecológico entende e observa o ano sabático. Neste ano é concedido descanso àqueles que trabalham sob as ordens de alguém (Ex 23,12; 20,10; Dt 5,14-15). E a própria terra ganha nesse ano o seu descanso. Para quem entende de agricultura sabe da importância do repouso da terra, para renovar a terra por meio da decomposição de vegetais, cereais e outras matérias que ao decomporem serve de adubo.
O homem ecológico, como Francisco de Assis, é irmão e cuida dos animais (Dt 22; Is 11,6). O patrono dos ecologistas tentou substituir a idéia do ilimitado domínio do homem sobre a criação pela idéia da igualdade de todas as criaturas. Na verdade, lendo Deuteronômio 22, vemos que o homem não é tão senhor assim da criação e dos animais. Nesse texto ele não passa de um homem ecológico, responsável pela manutenção do eco-sistema. Êxodo 34,26 Deus regulamenta ao homem que não abata animais muito novos, só deve adquirir o alimento necessário (Nm 11, 32,33; Sl 78, 29-31 e Ex 16,12-16) e não matar a ave-mãe (Dt 22,6,7). Todos estes exemplos são para manutenção da vida biológica e equilibrar o eco-sistema.<
A água é usada de forma controlável, sem desperdício, pelo homem ecológico. O Salmo 104 conta que Deus criou as águas nas nuvens (v.3) e na terra (v.6). Ele controla seus limites (vv. 7-9), determina fontes de onde brotará na terra (v.10) e, por ordem sua, faz com que a chuva caia (v.13), dessa forma tornando a terra frutífera e alegrando o coração do homem (vv.11-18). Um dos fatores que afetam a distribuição e disponibilidade de água é a conduta do ser humano. Na bíblia a água é usada como julgamento àqueles que quebram a aliança, aos desobedientes e aos que não tem lei (lv 26,19; Dt 28,23; Am 4,7; 1Rs 18,18). Isso revela que nosso pecado da ganância, que depreda o meio ambiente e os rios, compromete tanto o fornecimento, quanto a qualidade da água que tanto necessitamos.
Enfim, cabe ao homem ecológico usar e criar tecnologias que o ajudem na mordomia da criação. Já estão disponíveis alguns recursos ecologicamente correto, como: energias renováveis, carros não poluentes, reciclagem para produtos como vidros, plásticos entre outros; Cabe a nós o compromisso de não jogarmos lixo tóxicos nos rios; criarmos um sistema de produção que respeite o mandato cultural de trabalhar e cuidar do meio ambiente; evitarmos as queimadas nas nossas florestas; reduzir a emissão de dióxido de carbono no ar e etc. Com essas medidas e muitas outras que estão sendo estudadas sendo praticado pelo homem, convertido no engajamento ecológico, fará sentido e produzirá maiores resultados ao que os órgãos governamentais e ONG’s estão discutindo nesses encontros internacionais.
*Homem no sentido genérico, significando ser humano


meireane disse:
É muito relevante debatermos a respeito da responsabilidade social que temos no meio em que vivemos, e nós como cristãos estamos nos resguardando de expormos nossas opiniões que muitas vezes são relevantes para contribuir com a insensata devastação ecologica, damos-nos por calados, manifestando assim mesmo indiretamente, aprovação ao que esta acontecendo, igreja hoje é acomodada com as irregularidade que acontecem, enquanto a igreja católica se expõe e ganha voz no meio da comunicação com idéologias que poderiam ser nossas bandeiras para mudarmos o mundo com “a mente racional”, conf. Romanos 12.
Parabanes Andrey seja este atalaia nas pautas que precisam ser pontuadas em nosso meio religioso.